Dez maneiras de ajudar seus filhos a amar e permanecer na Igreja

Se você tem filhos e está em uma igreja fiel que prega o evangelho, não gostaria que eles amassem essa igreja e permanecessem nela? Venho sugerir uma lista com maneiras para auxiliar os pais cristãos a ajudarem seus filhos a fazer isso.

Devo dizer que compartilho isso em primeiro lugar porque, se sua igreja for fiel, o evangelho está em jogo. É de vital importância para nossos filhos permanecer em uma igreja onde o evangelho de Cristo é proclamado por meio da Palavra e dos Sacramentos. Os filhos são discipulados para Cristo na igreja. Mas, nunca podemos tomar isso como certo.

Em segundo lugar, escrevo isso para me lembrar de como é importante discipular meus próprios filhos. Também devo dizer que nunca há qualquer garantia de que seus filhos permanecerão na igreja, ou que eles responderão às promessas do evangelho. Você pode fazer tudo certo, mas o Espírito Santo precisa regenerar o nosso coração, e o coração de nossos filhos também. É tudo pela graça. Porém, sob uma perspectiva humana, se você fizer uma, algumas ou todas essas dez coisas, certamente aumentará as chances de seus filhos permanecerem e amarem sua igreja focada no evangelho.

  1. Seja positivo sobre a igreja e seu relacionamento com ela. Certifique-se de que seus filhos ouçam e vejam sua atitude positiva. Lembre-se de orar regularmente pela igreja e pelos pastores, presbíteros e diáconos.
  2. Frequente regularmente os cultos de adoração. Comunique aos seus filhos que você precisa do ministério da Palavra e dos sacramentos e eles precisam também. Sempre é possível crescer. O chamado de Deus para a adoração aplica-se à sua família como também a todas as outras pessoas.
  3. Comprometa-se com sua igreja local. Envolva seus filhos o máximo possível nas atividades de sua igreja local.
  4. Torne a frequência à igreja obrigatória para todos em sua casa. Se eles não querem ir à igreja, deveriam ir de qualquer maneira (a menos que estejam doentes, é claro). Existem algumas coisas que podemos não ter vontade de fazer (como ir ao dentista), mas elas são boas para nós e nossos pais nos forçaram porque nos amavam. Ame seus filhos da mesma maneira.
  5. Da mesma forma, torne obrigatória a frequência ao catecismo. Se eles não quiserem ir, novamente você tem que insistir. Apoie os esforços de seu pastor para catequizar seus filhos. Verifique se eles estão memorizando o catecismo, verifique se eles estão fazendo o dever de casa e certifique-se de que estão preparados para a aula.
  6. Cante em casa o que você canta no culto público. Comunique aos seus filhos que você realmente aprecia os salmos e hinos da igreja. Que você deseja que eles adotem essas músicas e as valorizem. Ensine a seus filhos o significado do que cantam.
  7. Tanto quanto possível, more próximo o suficiente da igreja para que possa se envolver de forma significativa na vida da igreja. Se você mora mais longe, procure e aproveite as oportunidades para se aproximar.
  8. Ensine seus filhos sobre a importância de dar os primeiros frutos ao Senhor. Fale com seus filhos sobre contribuições financeiras para a igreja. Certifique-se de dar exemplo a eles, contribuindo fielmente. Seja um alegre doador!
  9. Mande-os para a escola cristã que as outras crianças da congregação frequentam. Isso os ajudará a desenvolver conexões e amizades com colegas na comunidade da igreja.
  10. Dê orientações úteis com relação a seus amigos e cônjuges em potencial. Incentive-os a ter amigos crentes e a encontrar cônjuges que amem ao Senhor, mas que também amem sua igreja.

Em resumo, faça tudo o que puder para comunicar que a igreja não é uma organização humana ou um clube onde você pode entrar e sair quando quiser. Deixe claro que a igreja é sua mãe espiritual (Gálatas 4.6), o corpo de Cristo (Efésios 1.22-23), a noiva pela qual Cristo morreu e que ele ama (Efésios 5.25), e a coluna e baluarte da verdade (1 Timóteo 3.15).

Tradução: Rev. Alan Kleber Rocha

“Sou muito grato pela obediência ativa de Cristo.”

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No final do século XIX e início do XX, estava ocorrendo uma épica batalha épica pelo evangelho na América do Norte. Quando eu digo “o evangelho”, eu realmente estou falando das boas novas de salvação em Jesus Cristo somente. O liberalismo teológico estava assolando igrejas que, no passado, havia sido firmes na fé bíblica, igrejas como a Igreja Presbiteriana nos EUA. Dentre outras coisas, o liberalismo estava negando a inerrância das Escrituras, negando milagres, como a concepção virginal de Cristo e sua ressurreição física, e a necessidade de uma expiação penal substitutiva. Deus levantou vozes proféticas ponderosas para protestar. Entre elas, destacou-se J. Gresham Machen (1881 – 1937).

Machen é mais conhecido pelo seu livro, Cristianismo e Liberalismo, de 1923. Machen habilmente argumentou que o liberalismo não era cristianismo bíblico – o livro é relevante ainda em nossos dias, pois apenas os nomes mudaram. Anteriormente um professor de Novo Testamento no histórico Seminário de Princeton, Machen entrou em conflito com o status quo e acabou se tornando uma figura protagonista na fundação do Seminário Teológico de Westminster, na Filadélfia.  Sua batalha contínua contra o liberalismo também o levou a ser despojado da Igreja Presbiteriana, em 1935. No ano seguinte, Machen esteve à frente da formação de uma nova igreja: a Igreja Presbiteriana da América. Posteriormente, essa igreja ficou conhecida como a Igreja Presbiteriana Ortodoxa.

No fim de 1936, Machen tinha 55 anos de idade. Desde há muito, ele tinha sido um ávido trilheiro e alpinista, mas aquele inverno o deixou com saúde má. Apesar de um resfriado e uma tosse horrível, Machen foi ao oeste, para a Dacota do Norte, para falar para algumas igrejas, durante o recesso de Natal do Seminário de Westminster. Sua saúde deteriorou rapidamente durante seu período nas pradarias. Em pouco tempo, ele estava no hospital, em Bismarck, com pneumonia. No dia 1º de janeiro de 1937, Machen alternava entre estar consciente e inconsciente. Durante um de seus momentos de lucidez, ele ditou um breve telegrama para seu amigo no Westminster, o Prof. John Murray. O telegrama foi breve: “Sou muito grato pela obediência ativa de Cristo. Nenhuma esperança sem ela.” Essas foram suas últimas palavras registradas. Ele morreu por volta das 19:30 do Dia de Ano Novo de 1937.

Cristianismo e Liberalismo pode estar no topo da pilha do legado literário de Machen, mas seu telegrama final definitivamente contém suas palavras mais citadas. Elas mercem um olhar mais próximo. O que Machen quis dizer com “a obediência ativa de Cristo” e por que ela lhe era tão encorajadora? Seres humanos pecaminosos têm um problema dobrado. Primeiro, por causa de nosso pecado, nós temos uma dívida infinita para com a justiça de Deus, que não podemos pagar. Segundo, mesmo que que nossa dívida fosse paga, nós ainda seríamos confrontados com a exigência da lei de Deus de contínua obediência daí em diante. Jesus Cristo endereça ambas. Como Ele sofreu a ira de Deus em nosso lugar, Ele pagou nossa dívida infinita. Na teologia, nós chamamos isso de sua obediência passiva (ou sofredora). Com seus 33 anos de observância perfeita da lei, Cristo também nos obteve uma obediência perfeita da lei de Deus. Nós chamamos isso de obediência ativa. Sua vida justa é imputada ou creditada a nós – conforme a Confissão Belga diz no artigo 23: “[…] sua obediência é nossa quando cremos nele”.

Romanos 5:19 fala diretamente dessa verdade do evangelho: “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos.” O Espírito Santo aponta para dois homens. Um, Adão, foi desobediente e seu fracasso carregado de culpa foi imputado a seus descendentes. O outro, Jesus Cristo, foi obediente e suas obras justas foram imputadas aos crentes para sua justificação. Quando nós temos Cristo como salvador, nós não temos apenas o perdão de nossos pecados, mas também a justiça positiva aos olhos de Deus. Com base nas duas coisas, Deus nos declara reconciliados consigo. Ele nos vê como perdoados E perfeitamente obedientes.

Esse ensino do evangelho estava fresco na mente de Machen quando ele estava morrendo porque, umas duas semanas antes, ele havia feito uma transmissão no rádio sobre o assunto. Antes disso, ele o havia discutido com John Murray no seminário. No que ele sabia que estava morrendo, ele olhou não para sua vida de imperfeição em seguir a Cristo, mas para a vida perfeita que Cristo havia vivido por ele. Machen encontrou conforto em saber que ele apareceria diante do trono de Deus perfeitamente trajado com a justiça de Jesus. Sua conta não havia apenas tido toda dívida cancelada, mas preenchida com os méritos imputados de Cristo. Você consegue ver por que Machen terminou com “Nenhuma esperança sem ela”. Nós podemos até inverte: “A obediência ativa de Cristo: muita esperança com ela!”

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Tradução:  Natan Cerqueira

Como se beneficiar da Ceia do Senhor

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Antes de uma recente celebração da Ceia do Senhor em minha igreja, aproveitei a oportunidade para dar um pouco de ensino extra sobre como os cristãos podem e devem se beneficiar do sacramento da Ceia do Senhor.

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Antes de ler a Forma para a celebração, quero apenas dar algumas instruções extras por um momento sobre como se beneficiar da Ceia do Senhor. Você já foi à Ceia do Senhor e depois se afastou dela e se perguntou: “O que foi aquilo? O que eu deveria ganhar com isso? ”Você já se perguntou:“O que deveria acontecer comigo na Ceia do Senhor?”

Bem, a Ceia do Senhor é um sacramento destinado a fortalecer nossa fé. É fácil pensar que isso é algo que está fora de nossas mãos. Nós vamos sentar à mesa, e então apenas esperarmos e vermos o que acontece. É como se estivéssemos esperando que um raio espiritual nos atingisse e recarregasse nossa bateria espiritual. Pode acontecer e pode não, mas está fora de nossas mãos. Mas nada acontece. Nós comemos o pão, bebemos o vinho, mas nada muda. Nós não sentimos nada. Nossa fé não é fortalecida.

Amados, temos que lembrar como esse sacramento funciona. Não funciona como mágica. Não é que sejamos apenas participantes passivos esperando que Deus faça o que Ele faz conosco para fortalecer nossa fé. Não, devemos nos envolver ativamente. Você tem que vir para a mesa com o coração e a mente envolvidos. Quando Jesus disse: “Faça isso em memória de mim” (Lucas 22:19), ele quis que tivéssemos consciência do que estamos fazendo. Se você vai se beneficiar da Ceia do Senhor, precisa pensar no que está acontecendo. Caso contrário, é apenas um ritual vazio. E um ritual vazio não tem benefício – muito pelo contrário!

Deixe-me fazer isso concreto e prático para você. Observe-me enquanto eu parto o pão. Essa é uma parte importante do sacramento. Estou realmente partindo esse pão, e então o corpo de Cristo foi realmente quebrado para pagar por seus pecados. Quando o pão chegar até você, pegue-o na mão e olhe por um momento. É real. Então o corpo de Cristo que carregou seus pecados é real. Esse corpo foi realmente pregado na cruz por você. Experimente isso. Sinta na sua boca. É real: diga a si mesmo, é assim que o evangelho é real. Faça a mesma coisa com o vinho. Observe-me enquanto eu derramo o vinho no copo. Estou realmente servindo vinho de verdade. Foi assim que o sangue de Cristo foi real e foi derramado por seus pecados. Quando você pegar o copo, olhe para ele; cheire se quiser. Pense nisso. É real – então Cristo teve uma verdadeira coroa de espinhos na cabeça e produziu sangue real. Quando você bebe o vinho, diga a si mesmo: este é o vinho real e o sangue de Cristo que derramou de suas mãos, pés e laterais também é real. Aquele sangue real garantiu minha salvação. É tudo verdade, é tudo real.

Amados, é assim que sua fé será fortalecida nesta manhã. Veja os elementos reais do pão e do vinho e, através deles, veja como o evangelho é real.

Guido de Brès e a Comunhão para os doentes

Os sacramentos foram designados por Deus para fortalecer nossa fé em Jesus Cristo. À medida que vivemos, experimentamos provações e dificuldades que às vezes desafiam nossa fé. Nesses momentos, podemos nos alegrar porque nosso Pai nos deu os sacramentos para nos nutrir e nos firmar nas promessas do evangelho. Historicamente, no entanto, as Igrejas Reformadas Canadenses retiveram o sacramento da ceia do Senhor daqueles que estão reclusos e incapazes de frequentar um culto público regular. Aqueles que mais podiam se beneficiar dele, não puderam. Até recentemente.

Decisões Recentes

Em 2006, a Igreja Reformada Canadense em Smithers trouxe uma abertura para um Conselho de Classes do Pacific West, solicitando que a ordem da Igreja fosse emendada para acomodar a administração da Ceia do Senhor àqueles que estão reclusos por causa de doenças ou velhice. As revisões sugeridas sustentavam que o sacramento seria administrado no contexto de um culto, por um ministro e todas as outras ordenanças na ordem da Igreja com relação à admissão ao sacramento seriam seguidas. O Conselho de Classes do Pacific West dos dias 10 e 11 de outubro de 2006 concordou em passar a proposta de Smithers para o próximo Sínodo Regional do West. O Sínodo Regional do West de 2006 considerou o assunto e concordou em encaminhá-lo ao Sínodo Geral de Smithers em 2007.

O Sínodo de 2007 decidiu que não era necessário revisar a ordem da Igreja para acomodar a administração da Ceia do Senhor aos reclusos. O Sínodo concordou e assumiu estas considerações do Sínodo Regional West de 2006:

1) Não é o número de participantes nem o local que constitui um “culto público”, mas a presença de portadores de cargos junto com os membros da congregação (“a forma da igreja”).

2) O atual reconhecimento da forma da igreja em múltiplos lugares pode, por extensão, ser aplicado a circunstâncias extraordinárias na congregação, no sentido de que o consistório poderia ter um culto de adoração para aqueles que não podem comparecer ao encontro normal. Em princípio, isso não difere de um consistório que convoca a congregação por duas vezes (por exemplo, quando o prédio é pequeno demais, necessitando de dois cultos consecutivos) ou convocando a congregação em dois locais (por exemplo, quando os membros moram muito longe).

3) Os consistórios são os responsáveis pelo cuidado pastoral dos membros. Se, no julgamento da reunião, um membro recluso exigir o encorajamento contido na Ceia do Senhor, o consistório deve fazer o que puder para proporcionar esse encorajamento.

4) Embora a administração da Ceia do Senhor pertença às igrejas em comum, ainda é discutível se é necessária ou não uma revisão de certos artigos da ordem da Igreja.

Essencialmente, então, o Sínodo de 2007 aceitou que a igreja de Smithers e outras igrejas Reformadas Canadenses fornecessem a Ceia do Senhor aos reclusos. Apesar de três recursos, o Sínodo de 2010 confirmou a decisão do Sínodo de 2007.

Uma Discussão Antiga

Esta questão já foi discutida em nossa história. Recentemente me deparei com ela em um debate que foi realizado entre Guido de Brès e um bispo católico romano. O autor da Confissão Belga estava preso em Valenciennes, aguardando a data de sua execução. Ele havia sido acusado de celebrar a Ceia do Senhor de maneira contrária à ordem do governo. Em 22 de maio de 1567, François Richardot veio se encontrar e debater com de Brès. Ele esperava fazê-lo mudar de ideia e também trazê-lo de volta para o rebanho do católico romano.

O debate centrava-se nas diferenças entre a Santa Ceia bíblica e a missa católica romana. Com meio caminho andado do tempo da sessão naquele dia, de Brès disse o seguinte:

Na medida que você diz que a missa é a Ceia do Senhor Jesus Cristo, eu realmente queria saber por que o padre a realiza de modo diferente daquele que Cristo fez e ordenou que fosse feito. Cristo estava sentado à mesa com seus discípulos. Ele pregou e admoestou com a Palavra de Deus. Ele não estava disfarçado em uma indumentária como um padre. Ele não falava em uma língua desconhecida. Ele tomou o pão e, depois de dar graças a Deus, o partiu e distribuiu aos seus discípulos. E também tomou o cálice, dizendo: “Bebei dele todos”. Ele não estava num altar, mas numa mesa. Ele não fez um sacrifício, mas comeu e ordenou comer.

A estratégia de de Brès nesse debate era constantemente ressaltar as diferenças entre o modo como a Ceia do Senhor era celebrada na Escritura e a forma como a missa era feita pela Igreja Católica Romana.

Em sua resposta, Richardot se agarrou ao que achava ser a fraqueza da posição de de Brès nas palavras citadas acima. De Brès havia apontado que era uma refeição comunitária, celebrada por Cristo e seus discípulos. O Bispo Richardot respondeu:

…Eu digo que a missa é algo maravilhosamente louvável, de modo que toda vez que é dito que a comunhão será realizada, eu a desejo ansiosamente. E se alguém pedir dela, não lhe deve ser recusado. Se deve haver um sacerdote que tenha a devoção para celebrá-la, deveria ele ser impedido desta bênção porque não há outros comungantes? Isso não seria de todo razoável. E certamente você está muito perto de ser condenado por crueldade e desumanidade. Perdoe-me por falar assim sobre você, por recusar o sacramento aos pobres enfermos, o que é algo totalmente repugnante à caridade fraternal e a maneira da igreja primitiva, que permitiu a participação dos doentes.

Para nossos propósitos, é a menção da comunhão para os doentes que chama nossa atenção. O bispo alegou que as igrejas reformadas proibiam dar a Ceia do Senhor àqueles que estão reclusos e que isso era cruel, desumano, falta de amor e sem ligação com a igreja primitiva.

Pouco tempo depois, de Brès voltou a este tópico e deu sua resposta ao bispo:

Quanto a você nos acusando de desumanidade por não dar o sacramento aos doentes, confesso que isso já foi feito algumas vezes. Mas se é lícito, baseado no que eu disse, não vejo uma boa razão. Não é um sacramento destinado a ser dado a apenas uma pessoa, pois é uma comunhão de muitos que deveriam recebê-lo juntos, e não apenas um. No entanto, eu não seria muito rigoroso se algum crente estando doente solicitasse o recebimento deste sacramento e se vários outros estivessem preparados para participar com aquele que faz o pedido, e se fosse o costume da igreja, não, digo eu, condenaria tal costume.

À primeira vista, essa resposta parece refletir alguma ambiguidade sobre o assunto.

Uma Posição Bem Ponderada

Por um lado, de Brès era um estudante minucioso dos pais da igreja primitiva. Seu extenso conhecimento é revelado não apenas em seus debates e outros escritos, mas também na Confissão Belga e em suas muitas alusões, citações e paráfrases da patrística. Quando diz: “Confesso que isso já foi feito algumas vezes”, ele está dando alguma deferência à igreja primitiva. No entanto, ele acrescenta rapidamente que é difícil racionalizar a legalidade dessa prática. Essa declaração deve ser entendida no contexto, no entanto, de um número de práticas aberrantes. Por exemplo, na igreja medieval havia a prática de reservar pão / hóstias consagradas para serem recebidas mais tarde pelos enfermos. Eles receberiam em particular, normalmente sem qualquer explicação ou qualquer acompanhamento da administração da Palavra (ver Institutas de João Calvino, 4.17.39).

De Brès insistiu que o sacramento, por sua própria natureza, não foi projetado para ser tomado por uma pessoa sozinha. É chamado de “comunhão” por um bom motivo. Uma comunhão de um só seria um oximoro.

No entanto, de Brès reconheceu o perigo de ser excessivamente rigoroso em relação àqueles que estão doentes e reclusos. A prática normal deveria ser a comunhão com todos os outros crentes em um culto público. Mas ele não excluiu a possibilidade de permitir que um crente levasse a Ceia do Senhor para fora daquele contexto, desde que isso fosse feito em um ambiente comunitário e com a aprovação da igreja. Ele não julgaria esse tipo de celebração cuidadosamente circunscrita para aqueles que estivessem reclusos.

O bispo deixou esta questão em particular neste momento do debate, assim nada mais foi dito. Se tivéssemos a oportunidade de perguntá-lo, sem dúvida, de Brès diria mais. O que exatamente ele diria tem que continuar sendo uma questão de especulação. Infelizmente, além da Confissão Belga, de Brès escreveu apenas dois livros principais e alguns outros textos e, até onde eu sei, esta questão não é abordada em nenhuma dessas obras.

O que está claro é que, sob condições cuidadosamente delineadas, o autor da Confissão Belga estava preparado para permitir que aqueles que estavam reclusos recebessem a comunhão. Naturalmente, Guido de Brès não tem a última palavra sobre este assunto. Ele era apenas um homem e os homens podem errar – veja sua própria declaração no artigo 7 da Confissão Belga: nada tem “o mesmo valor da verdade de Deus”. No entanto, o registro histórico demonstra que a posição tomada pelo Sínodo de 2007 cai dentro do leque de posições tomadas pelos nossos antepassados reformados sobre este assunto.


Tradução: Gabriel Reis.

Revisão: Tainá Alves.

Seu Culto é Reformado?

Reformed Worship Service

Algum tempo atrás, eu fui à um culto de uma igreja vizinha que não era reformada.O que mais me chocou foi aonde era dada maior ênfase no culto. Os procedimentos começaram com música. Uma banda estava no palco com cantores. Eles cantaram muito louvores e canções de adoração. Por fim, o líder de louvor disse, “Agora que o culto terminou, nosso pastor vai subir e dar sua mensagem”. A “mensagem” foi o clímax, seguindo a “experiência de adoração” emocional. O foco nessa igreja pareceu claro o suficiente.

Um dos distintivos das Igrejas Reformadas é a doutrina dos meios de graça. Essa doutrina, quando conscientemente preservada, também faz com que o culto reformado seja distintivo. Você pode dizer que está em uma igreja reformada quando a doutrina dos meios de graça é levada a sério e aplicada no culto da igreja. O foco em um Culto Reformado está sobre o ministério da Palavra e os Sacramentos. Vejamos como essas coisas trabalham como meios de graça e como elas precisam permanecer como nosso foco.

O primeiro dos meios de graça é a leitura e pregação da Palavra de Deus. A Escritura é aberta, lida e exposta. A lei de Deus é aplicada à congregação. A congregação é lembrada de seu pecado e miséria. Isso tem o duplo propósito de nos fazer humildes na presença de um Deus Santo e então também nos conduzir à cruz de Jesus Cristo. Essa aplicação da Lei acontece na leitura dos Dez Mandamentos, mas também através da leitura e pregação de outras Escrituras. O Evangelho é também aplicado para o conforto da congregação. O povo de Deus é encorajado com as promessas de seu amor e salvação em Jesus. Isso ocorre em muitas igrejas reformadas no momento da Segurança do Perdão, mas também, é claro, através da leitura e proclamação da Palavra de Deus. Finalmente, a vontade de Deus como expressa em sua Lei também é trazida à uma congregação grata à Deus. Nós somos ensinados acerca da boa vontade de Deus para nossas vidas e como demonstrar nosso amor por esse Deus gracioso que também nos ama tão profundamente. Isso também acontece através da leitura e pregação da Escritura.

A Escritura é um meio de graça porque ela é como Deus planeja abençoar seu povo quando Ele se reúne com eles. Seu desígnio é abençoá-los através de Sua Palavra, a voz do Bom Pastor é ouvida. É ouvida quando Ele repreende, quando Ele conforta, e quando ele instrui. Quando feito fielmente, nós não meramente ouvimos uma voz humana quando um ministro prega. A pregação fiel da Palavra de Deus é a Palavra de Deus — “Por isso também damos, sem cessar, graças a Deus, pois, havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade), como palavra de Deus, a qual também opera em vós, os que crestes.” (1 Ts 2.13).

O outro meio de graça é a administração dos sacramentos. As igrejas reformadas administram os sacramentos do batismo e da Ceia do Senhor, segundo o mandamento de Cristo e seus apóstolos. O batismo é administrado como o sacramento de iniciação. Através do batismo, nós somos publicamente admitidos na aliança de Deus e na igreja. Através do batismo, nós recebemos o sinal e o selo das promessas da aliança de Deus. Deus está demonstrando-se gracioso para com aqueles que recebem o batismo. Todavia, em cada batismo, a congregação inteira é encorajada com a graça de Deus. Nós somos todos lembrando de como nosso Deus gracioso primeiro aproximou-se de nós e nos tomou para Si. Veja, batismo não diz respeito apenas àqueles envolvidos no batismo (aquele que está sendo batizado, os pais [NT* o autor é um irmão pedobatista]), mas à toda congregação!

A Ceia do Senhor é administrada como o sacramento de nutrição. Para muitos é comum ver a Ceia do Senhor meramente como um memorial, como colocar flores sobe o túmulo de um ente querido que partiu. A visão reformada inclui um aspecto memorial, mas é muito mais rica. Nesse sacramento, Jesus Cristo está verdadeiramente presente em sua divindade, majestade, graça, e Espírito. Ele está presente para abençoar os crentes que participam do pão e vinho na fé. Ele irá revigorar e nutri-los, fortificá-los na fé. Através da Ceia do Senhor somos verdadeiramente alimentados pelo próprio Salvador.

Os sacramentos são meios de graça porque também é assim que Deus quer abençoar seu povo, quando eles se reúnem com Ele. Ele quer continuar lhes dando o oposto do que eles merecem em vista de sua contínua pecaminosidade. Ele reivindica esses pecadores para Si e alimenta-os com comida e bebida espiritual. Além disso, nosso Deus gracioso sabe que a Palavra é frequentemente recebida com fraqueza. Ouvir apenas é difícil para nós como criaturas pecadores. Assim, em Sua graça, Ele adiciona estes dois sacramentos muti-sensoriais do batismo e da Ceia do Senhor.

Agora, por que estes meios de graça estão no centro do Culto Reformado? Por que essas coisas são o foco e ênfase? Isto remonta ao pacto da graça. O pacto é um relacionamento entre Deus e Seu povo. Quem permanece no centro desse relacionamento? Nem eu, nem você. Não, Jesus Cristo permanece no centro como o Mediador do pacto. Ele é aquele “lubrifica as engrenagens” deste relacionamento. Se um culto é reflexo desse relacionamento pactual, Cristo e Seu ministério não deveriam permanecer no centro? O foco não deveria estar sobre Cristo quando Ele ministra a nós com a Palavra e sacramentos, quando ele “lubrifica as engrenagens”? Há uma lógica distintivamente reformada para nosso foco sobre os meios de graça e isso tem tudo a ver com o pacto da graça.

É claro que ainda há um lugar para nossa resposta em oração e cânticos. O relacionamento pactual é bidirecional e Deus espera que Seu povo irá respondê-lo. Em virtude do pacto, tem de haver uma via de mão dupla em nossos cultos. Isso não é um problema. Ninguém jamais disse que oração e cânticos deveriam ser eliminados do culto reformado. A pergunta é: onde está nosso foco? Qual é o centro? Qual é a principal atração em um Culto Reformado? A resposta distintivamente reformada, extraída da Escritura, sempre foi: os meios de graça, o ministério da Palavra e sacramento. Com uma ênfase sobre o ministério da Palavra e sacramento, os meios de graça, seu culto será Reformado — o que quer dizer, bíblico.

TRADUÇÃO: Victor Gomes