Fora da igreja não há salvação (1)

Parte 1 de uma palestra sobre artigo 28 da Confissão Belga para o Encontro da Fé Reformada (Recife) no dia 1 de novembro 2013.

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A Igreja é necessária ou não? Escute a resposta que, deu para essa pergunta, por um canadense muito popular:

– “Acho que muitas pessoas que são religiosas estão perdidas! Elas vão para a igreja simplesmente por ir à igreja. Não estou tentando desrespeitá-las, mas para mim, eu foco mais a vida em oração; em conversar com Ele, eu não preciso ir para a igreja”.

Então de acordo com Justin Bieber, ir à igreja não é necessário. Mas ele precisa ainda das orações! Mas enquanto ele precisa das orações, na igreja, é onde você encontra as pessoas que estão ali pelas moções, pelas moções da igreja enquanto instituição. Essas pessoas que vão à igreja não são genuínas, não são verdadeiras.  E essa é a visão de muitos jovens cristãos que estão no Canadá, nos Estados Unidos e, provavelmente, que estão ao redor do mundo.

E de fato, muitas vezes, essa opinião está presente não somente nessa faixa etária, mas ao longo de todas as faixas etárias, uma diversidade de idades. E muitas vezes, está no pensamento daqueles que são reformados e presbiterianos. Para muitas pessoas, a igreja pode ser comparada a uma academia; então, por um tempo, por exemplo, fui à uma academia e achei legal. Ela, aquela academia, supria as minhas necessidades. E aí, nós nos mudamos para outro local, e aquela academia que eu frequentava ficou muito longe para mim e comecei a ir para uma outra que era mais perto da minha casa. Também era legalzinha, mas depois de um período percebi que ela era muito cara e aí eu parei de ir para aquela nova academia. E o que aconteceu é que depois de algum tempo, levou um pouco de tempo para perceber, que eu não precisava, de maneira nenhuma, de uma academia para ser uma pessoa fisicamente ativa. Posso tomar conta da minha saúde em minha própria casa, saindo por exemplo para uma boa caminhada. Eu não precisava da academia! Você percebe a analogia aqui? Se a academia não supre as minhas necessidades, então eu vou e encontro uma outra academia que as supra. Se ela é muito cara, se ela faz muitas exigências para mim. Então, eu tenho uma opção de encontrar uma academia que seja mais barata ou que se adeque ao meu estilo de vida. E, no final do dia, posso chegar a conclusão de que não preciso de uma academia, de maneira nenhuma. Eu posso fazer na minha casa sozinho, e é exatamente, dessa maneira, que muitos pensam a respeito da igreja; pode ser um lugar legal, desde que ela alcance as suas necessidades, mas de em última instância, ela é desnecessária para os cristãos. E se você acha que precisa da igreja, a sua escolha de uma igreja passa a ser regulada a partir do que você deseja e pelas suas necessidades, é tudo centrado no seu eu; em você.

Então, aquele Justin Bieber, ele estava certo pelo menos em uma coisa, ele estava certo quando falou, muitas pessoas que são religiosas, acho que elas se perdem. Perdem-se não entendendo que precisam de Deus e da Palavra de Deus, serem supridos por Deus e pela Palavra de Deus.  Muitas pessoas estão perdidas porque elas não pensam a respeito dessas coisas à luz, do que se refere, dos ensinamentos de Cristo e das Escrituras. E é exatamente isso que iremos fazer aqui, através das Escrituras e da Confissão Belga. O que as Escrituras a respeito da necessidade da igreja? Na Confissão Belga, temos um resumo a respeito desse assunto, e obviamente, será esse resumo que vai ser o nosso guia de estudo. Vamos perceber que, ao contrário do que muitas pessoas dizem, a igreja não é opcional para o cristão. E quero considerar com vocês que é dever do cristão fazer três coisas:

  1. juntar-se e unir-se com uma igreja;
  2. submeter-se às instruções e à disciplina da igreja,
  3. e servir a outros crentes na igreja.

Continua…

Um Mártir da Reforma Conforta Sua Esposa (3)

Este não é o lugar da nossa habitação – que está no céu.  Este é apenas o local da nossa jornada.  É por isso que ansiamos por nosso verdadeira pátria, que é o céu.  Nós desejamos ser recebidos na casa do nosso Pai Celestial, ver nosso Irmão, Cabeça e Salvador Jesus Cristo, ver a nobre companha dos patriarcas, profetass, apóstolos e muitos milhares de mártires, em cuja companha espero ser recebido quando encerrar o percuso da obra que recebi do meu Senhor Jesus Cristo.

Eu te peço, minha caríssima amada, que te consoles com a meditação nessas coisas.  Considera a honra que Deus te atribuiu, ao dar-te um marido que não somente foi um ministro do Filho de Deus, mas era tão estimado por Deus que ele o permitiu possuir a coroa dos mártires.  É uma qualidade de honra que Deus jamais concedeu aos anjos.

Eu estou feliz; meu coração está leve e nada falta em minhas aflições.  Estou tão cheio da abundância das riquezas do meu Deus que tenho o bastante para mim e todos aqueles com quem posso conversar.  Assim, oro ao meu Deus que mantenha sua bondade comigo, seu prisoneiro.  Aquele em quem confiei o fará, pois descobri por experiência que ele jamais abandonará aqueles que confiaram nele.  Nunca imaginei que Deus pudesse ser tão gentil com uma criatura tão miserável quanto eu.  Eu percebo a fidelidade do meu Senhor Jesus Cristo.

Agora, estou praticando o que preguei a outros.  E devo confessar que, quando eu pregava, falava sobre as coisas que atualmente experimento como um cego fala das cores.  Desde que fui preso, tenho me beneficiado mais e aprendido mais que durante todo o restante da minha vida.  Eu estou em uma escola ótima: o Espírito Santo me inspira continuamente e me ensina como usar as armas neste combate.  Do outro lado está Satanás, o adversário de todos os filhos de Deus.  Ele é como um violento leão que ruge.  Ele me rodeia constantemente e procura ferir-me.  Todavia, aquele que disse “não temas porque eu venci o mundo” me faz vitorioso.  E, desde já, vejo que o Senhor coloca Satanás sob meus pés e sinto o poder de Deus aperfeiçoado em minha fraqueza.

Nosso Senhor me permite, por um lado, sentir minha fraqueza e pequenez, que nada sou senão um pequeno vaso na terra, mui fragíl, a fim de que ele me humilhe, para que toda a glória da vitória seja dada a ele.  Por outro lado, ele me fortalece e me consola de um modo inacreditável.  Eu tenho mais conforto que os inimgos do evangelho.  Eu como, bebo, e descanso melhor do que eles.  Estou encarcerdaro em uma prisão muito forte, muito fria, escura e sombria.  Por causa de sua escuridão, a prisão é conhecida pelo nome de “Brunain.”  O ar é terrível e ela fede.  Em meus pés e mãos, tenho grilhões, grandes e pesados.  Eles são um inferno contínuo, escavando meus membros até meus miseráveis ossos.  O comandante vem examinar meus grilhões duas ou três vezes ao dia, temendo que eu escape.  Há três guardas de quarenta homens em frente à porta da prisão.

Eu também recebo visitas do Monsieur de Hamaide.  Diz ele que vem para ver-me, consolar-me e exortar-me à paciência.  Entretanto, ele vem após o jantar, depois de ter vinho na cabeça e o estômago cheio.  Você pode imaginar o que são essas consolações.  Ele me ameaça e diz que se eu demonstrasse qualquer intenção de escapar, ele teria me acorrentado pelo pescoço, o tronco e as pernas, para que eu não pudesse mover um dedo; e ele diz muitas outras coisas nesse sentido.  Mas, apesar de tudo, meu Deus não retirou suas promessas, consolando meu coração, concedendo-me muito contentamento.

Porque tais coisas aconteceram, minha querida irmã e fiel esposa, eu te imploro que, em tuas aflições, encontres conforto no Senhor e entregue teus problemas a ele.  Ele é o marido das viúvas crentes e pai dos órfãos pobres.  Ele jamais te abandonará – disso posso te assegurar.  Conduza-te como uma mulher cristã, fiel no temor do Senhor, como sempre o fizeste, honrando por meio de uma vida e conversas excelentes a doutrina do Filho de Deus, que teu marido pregou.

Como sempre me amaste com grande afeição, peço que mantenhas esse amor com relação aos nossos filhinhos, instruindo-lhes no conhecimento do verdadeiro Deus e de seu Filho Jesus Cristo.  Seja pai e mãe deles, e cuida para que eles usem com honestidade o pouco que Deus te deu.  Se Deus te conceder o favor de permitir que, após minha morte, vivas na viuvez com nossos filhos, tudo ficará bem.  Se não puderes, e os bens faltarem, então encontre algum homem bom, fiel e temente a Deus.  E, quando eu puder, escreverei aos nossos amigos para que te protejam.  Penso que elese não te deixarão em necessidade de qualquer coisa.  Retorna à tua rotina habitual depois que o Senhor tiver me levado.  Tens contigo nossa filha Sarah, que logo será crescida.  Ela será tua companheira e te auxiliará em teus problemas.  Ela te consolará nas tribulações e o Senhor sempre estará contigo.  Saúda nossos bons amigos em meu nome, e peça que orem a Deus por mim, para que ele me dê força, articulação e a sabedoria e capacidade de preservar a verdade do Filho de Deus até o fim e o último fôlego da minha vida.

Adeus, Catherine, minha querida amada.  Eu oro a meu Deus para que te conforte e conceda contentamento segundo sua boa vontade.  Eu espero que Deus tenha me dado a graça de escrever para teu benefício, de tal forma que sejas consolada neste mundo miserável.  Guarda minha carta como lembrança de mim.  Está mal escrita, mas é o que posso, não o que desejo, fazer.  Recomenda-me à minha boa mãe.  Eu espero escrever algum consolo a ela, se agradar a Deus.  Saúda também minha boa irmã.  Que ela possa entregar sua aflição a Deus.  A graça esteja contigo.

Da prisão, 12 de abril de 1567.

Teu fiel marido, Guido de Brès, ministro da Palavra de Deus em Valenciennes, e presentemente prisioneiro pelo Filho de Deus no local supracitado.

Ele foi enforcado em 31 de maio de 1567.

Reflexão Final

Refletindo nesta carta, considere como seu irmão, Guido de Brès, tomava parte nos sofrimentos de Cristo.  Atravès de muitas tribulações, ele estava entrando no reino de Deus.  Ele deixou uma Confissão para nós, um sumário fiel do que a Escritura ensina.  Você morreria por essa Confissão?  Você sofreria por ela? Você abandonaria família e amigos pela doutrina no Antigo e do Novo Testamento sumarizada nesta Confissão?  Permita-me deixar-lhe com as palavras do nosso Senhor Jesus em Mateus 10.37-39:  “Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e vem após mim não é digno de mim.  Quem acha a sua vida perdê-la-á; quem, todavia, perde a vida por minha causa achá-la-á.”

A igreja de Cristo é católica (5)

Parte 5 de uma palestra sobre artigo 27 da Confissão Belga para o Encontro da Fé Reformada (Recife) no dia 31 de outubro 2013.

Quero voltar e tratar o que diz respeito ao significado da catolicidade da igreja.

Vocês têm conhecimento de que às vezes tem sido difícil para alguns crentes aceitarem a catolicidade da igreja, muitos têm problemas com outros que são diferentes deles. Por exemplo: pessoas que tem cor de pele diferente da deles, ou uma cultura diferente. Ou um status econômico e social diferente do deles, ou até uma língua diferente. E às vezes é difícil um desafio observar como pessoas diferentes são uma bênção ao invés de vê-los como uma ameaça. Esse desafio já exista na época dos apóstolos. É exatamente isso que observamos em Atos 11, Pedro vê uma visão extraordinária que abre seus olhos.   Ele simplesmente entende que os planos de Deus são muito maiores do que simplesmente a nação dos judeus. Mesmo Cristo, antes de Atos 11, já tinha dito pessoalmente para Pedro, exatamente, essa perspectiva, essa informação. É exatamente isso que Cristo já havia dito para todos os outros apóstolos. Em Atos capítulo 1, Cristo envia para as nações, primeiro indo para Jerusalém e depois expandindo as suas ações missionárias em círculos concêntricos. Mas para Pedro, essa informação não foi registrada.  Foi preciso uma visão vinda dos céus e depois ter um encontro com Cornélio para que Pedro pudesse entender que as portas da igreja estão escancaradas. As portas da igreja estão escancaradas para todo o tipo de pessoas, povos, tribos, língua e nações.

E o que ilustra isso muito bem é o que chamamos também de catolicidade geográfica e cultural da Igreja. Isso significa dizer que a igreja se espalha por todas as nações da terra. Podemos ir a, praticamente, todos os lugares do mundo e encontrar cristãos lá; em alguns locais, obviamente, precisamos ter contatos apropriados e saber onde procurar; mas eles estão lá. Deus tem o seu povo em muitas cidades e em muitos países, pessoas que nem eu, nem você tem a menor ideia de que eles existem. Nos ultímos tempos, estava pregando na Ucrânia em uma conferência bem semelhante a essa. E aí, um dos missionários reformados falou-me sobre uma oportunidade que ele teve de ir no Casaquistão para ajudar no treinamento de pessoas para servir à Igreja Reformada lá. Quem vai saber que tem uma Igreja Reformada lá no Casaquistão? Eu não sabia disso, eu não tinha a menor ideia disso, mas o povo de Deus é encontrado em todo o lugar. E eles vêm de todos os tipos de culturas distintas. E perceba que isso é uma coisa linda e muito boa: Deus deleita-se na diversidade. Se você tem alguma dúvida disso, vá ao zoológico ou olhe um aquário.   Diferentes cores e formas diferentes, todos criados por Deus, nosso Criador. Deus foi Aquele quem pôs a diversidade nesse mundo e Ele ama essa diversidade. Exatamente isso acontece, também, no meio de seu povo; nos novos céus e nova terra haverá esse grupo de diversificado de cultura e povo de Deus salvo, cantando um novo cântico ao Cordeiro. Magnificando juntos a glória do nosso Deus, será simplesmente como um coral que canta com vozes diferentes… Não sei se já perceberam que há partes de corais que cantam um setor de uma música, outros que cantam outros setores da música, mas  quando eles juntam as vozes eles soam muito bonito. E assim será quando a igreja Católica estiver ali junta perante o nosso Deus, aqueles cantos belíssimos de louvor ecoarão para sempre na eternidade; vocês estarão cantando em Português, talvez eu vou estar tentando cantar em Português; estaremos todos louvando a Deus.

Além dessas questões de diversidade cultural, existe também a questão do tempo; chamamos esse aspecto da catolicidade do aspecto temporal. Isso quer dizer que tem relação com o tempo. No Artigo 27, nós vemos esse conceito de catolicidade temporal sendo trabalhado no segundo parágrafo. Esse é um ensinamento importante também para hoje. Muitas pessoas acham que a igreja começou lá em Pentecostes, muitos crentes acreditam que a igreja é o plano B de Deus; o plano A de Deus foi trabalhar com os judeus, e essas pessoas pensam que Jesus veio estabelecer Seu Reino entre os judeus. E como isso não funcionou, as pessoas pensam que Deus, colocou a marcha dois, a segunda, engatou a segunda, e começou a trabalhar com os gentios através dos apóstolos. Esse tipo de visão tende a dizer que a igreja começou em Pentecostes. Eles dizem que Pentecostes é o dia do nascimento da igreja.  Essa visão é extremamente popular; mas é muito errada e não bíblica.

A igreja começou quando Adão e Eva, a igreja continua desde aquele momento até a eternidade. O mundo sem fim, desde a criação de nossos primeiros pais sempre houve uma igreja e sempre haverá uma igreja. Por que isso? A Confissão Belga responde essa pergunta com um argumento brilhante: Cristo é um Rei eterno e como Rei eterno não pode estar sem súditos. O autor da Confissão Belga, Guido de Brès, que mencionei anteriormente; acho que ele aprendeu esse tipo de argumentação diretamente de João Calvino. Pregando um sermão sobre a ascenção de Cristo, Calvino utiliza exatamente a mesma argumentação. E como esse tipo de argumentação funciona? É bem simples, deixa explicar para vocês: Cristo é um Rei eterno. Essa é uma verdade bíblica inegável. Ele sempre foi Rei e Ele sempre será Rei. Agora, por definição, um Rei precisa de súditos. É inimaginável um Rei sem súditos; portanto, Cristo, como um Rei eterno sempre terá súditos. Eles são aqueles que reconhecem o seu reinado. E esses súditos são aqueles que Ele mesmo ajuntou dentro da Sua igreja. Para esclarecer: a igreja não é a mesma coisa que o Reino de Deus, mas é lá onde encontramos os súditos do Rei. Portanto, sempre houve um reino para Cristo e sempre haverá um reino para Cristo; e é por isso que falamos sobre a catolicidade temporal da igreja. A sua natureza universal estende-se desde o passado e vai também até ao futuro.

E porque esse ensino é importante? Ela nos lembra que precisamos olhar para fora de nós mesmos. O nosso mundo atual é extremamente individualista, narcisista. A catolicidade da igreja lembra-me que a igreja é maior do que eu mesmo. Essa doutrina lembra que a igreja é muito maior do que os meus irmãos queridos ou do que a Congregação a qual participo. Ela é bem maior do que a Igreja Presbiteriana, ou do que a Igreja Reformada, ela é uma igreja que se estende desde o passado, milênios no passado; então, Abraão não é somente um pai na fé; mas ele também é um irmão em  Cristo. Um membro da mesma igreja a qual sou membro. E Ruth não é somente uma avó do Senhor Jesus Cristo, mas ela também é um membro da mesma igreja da qual somos membros. A igreja a qual Paulo e Pedro pertenciam é a mesma igreja católica, a qual eu pertenço, vocês e todos que somos verdadeiramente crentes. Percebam que somos parte de algo que é maior do que nós mesmos.

E podemos olhar para a história e podemos aprender tanto com isso. Há quatro-centro e cinquenta anos atrás Guido de Brès identificou uma dessas lições: ele e seus contemporâneos estavam bem familiarizados do que seja sofrer a ira do mundo contra eles. Essa confissão fora escrita na Holanda, o que naquele tempo incluía o que chamamos de Bélgica hoje. Naquele tempo, aquela área da Bélgica estava sob o domínio da Espanha; e obviamente que os espanhóis eram Católicos Romanos e odiavam o Evangelho. Então eles perseguiam as Igrejas Reformadas Holandesas. As igrejas eram chamadas de igrejas perseguidas sob a cruz. Quando a perseguição era muito intensa, obviamente que visualmente seus números diminuíam. E quando a autoridade espanhola aliviava da perseguição muitas pessoas vinham e estavam de volta na Igreja Reformada. Mas nos piores momentos da perseguição, o número das igrejas reformadas era contados nos dedos das mãos. E aí essas igrejas tinha uma aparência patética e até de pena para os que viam, mas Guido de Brès era um bom aluno, um bom estudante das Escrituras. Ele sabia da história de Elias nos dias de Acabe. Elias estava reclamando que só ele restava dos fiéis, “não havia mais ninguém, a igreja estava aparentando estar extinta, mas a realidade estava escondida aos olhos de Elias e foi somente revelada a Ele pela Palavra de Deus. Deus veio e disse a ele que existiam sete mil ainda que não haviam dobrado os joelhos no meio da Congregação da Aliança. Sete mil que Elias não sabia da existência deles. Deus naquele momento havia preservado a sua igreja. Deus preservou a sua igreja naquelas perseguições no século XVI. Deus continuará a preservar a sua igreja hoje; está prometido nas Escrituras e ilustrado nas Escrituras, e tem sido ilustrado várias vezes na história da igreja. Deus é Poderoso e Fiel e Ele não vai deixar a Sua noiva sozinha.

Deus ama a sua igreja Católica Cristã Universal. E que grande bênção é poder participar desse corpo diversificado de crentes. Certamente, experimento essa bênção congregando com vocês aqui no Brasil. Que extraordinário saber que estamos dentro dessa assembleia única e sabermos que estamos sendo reunidos pela vontade de nosso Deus. Nesse momento, vemos apenas um vislumbre do que significa ver essa igreja Católica. Mas a medida que caminhamos juntos em fé, Deus nos promete que veremos a realidade por completo. E quando esse dia chegar, ouviremos um belíssima melodia no coral de vozes louvando a Ele na eternidade. Irmãos e irmãs vamos, desde já, nos preparar para cantar e fazermos parte daquele grande coral.

 

A igreja de Cristo é católica (4)

Parte 4 de uma palestra sobre artigo 27 da Confissão Belga para o Encontro da Fé Reformada (Recife) no dia 31 de outubro 2013.

Mas, agora chegamos, no que diz respeito aos atributos dessa Igreja Católica. Os atributos, consideramos como categorias distintas, o Credo Niceno identifica quatro características distintas da igreja verdadeira, católica.  As características estarão presentes na Confissão Belga, Artigo 27 e em outros artigos. Olhemos essas quatros características.

Confessamos que a Igreja é Uma, existe unidade nessa igreja Católica, unidade enraizada no Senhor Jesus Cristo. Vemos, por exemplo, em Efésios 4:4-5, diz o seguinte: “há somente um corpo e um só Espírito, como também fostes chamados, numa só esperança, na vossa vocação. Há um Senhor, uma só fé, um só batismo”. Somos unidos por fé em Um Senhor comum, porque juntos de forma unida, nós cremos nele e nós o amamos  juntos. Como diz a Confissão Belga, nós estamos unidos em um só coração. E porque nós o amamos, nessa Igreja Católica, enquanto uma unidade, buscamos segui-lo. Estamos unidos em nossos corações e isso nos leva a estarmos unidos com nossas vontades, nossos desejos. E essa unidade vem até nós, nos é dada através do Espírito Santo. Ele é quem nos dá fé, Ele nos traz a unidade dentro deste corpo.

Segundo, confessamos que a igreja católica, universal, é Santa. Santo significa separado de um uso comum para um uso específico. A igreja é o povo de propriedade particular de Deus, ela é a sua jóia preciosa. Quando dizemos que a Igreja Católica é santa, não dizemos que Nela mesma, ela é perfeita. De certa forma, parte da Igreja Católica Universal é Santa, nesse sentido de perfeição. Aqueles que estão no céu e que já foram glorificados, aperfeiçoados, estes sim são santos e são parte dessa Igreja Católica. Mas a Igreja Católica, hoje, que se congrega aqui, nessa terra, ainda não está lá. Essa Igreja Católica que está na terra é perfeita e Santa aos olhos de Deus e aos olhos de Cristo. Mas ainda luta com fraquezas e com pecados; não obstante, isso ainda não pode mudar o fato de que ela é santa aos olhos de Deus e separada. E de que ela será glorificada por Ele na Era do porvir. E, por isso, Pedro pôde escrever em I Pedro 2, que a igreja era uma nação santa, um povo de propriedade exclusiva de Deus. Essa é uma das cartas que chamamos de cartas Católicas ou Cartas Universais Gerais porque ela se refere à igreja como um todo.

O terceiro atributo da Igreja é a sua Catolicidade. Voltarei para essa questão da Catolicidade depois. De forma abrangente, sabemos de forma abrangente o que é ser Católico, de verdade. Significa ser universal. Mas quero expandir um pouco mais sobre isso, no meu último ponto. Vamos para o quarto ponto que diz que a Igreja é Apostólica.

Quarto ponto: A Igreja Apostólica é fundamentada na doutrina dos Apóstolos, obviamente, na doutrina que foi entregue aos apóstolos por nosso Senhor Cristo. Podemos dizer, também, que apostólico, significa também bíblico. A Palavra de Deus é a Pedra Angular, a Pedra Fundamental, na qual a Igreja é construída. Há, também, outro aspecto que a Igreja Apostólica é com respeito a missões. Ser uma igreja apostólica também significa ser uma igreja missionária. Igreja Católica sempre tem um coração pelo mundo perdido, ela ama o Evangelho e ela ama também os perdidos. Busca alcançar os perdidos com o Evangelho de Cristo. Ser apostólico significa que juntamente com os apóstolos estamos na busca de outros crentes.

Mas os que são espertos podem levantar as perguntas: como é que esses quatro atributos da igreja estão relacionados com as marcas da verdadeira igreja. As marcas da Igreja vêm um pouco mais tarde, no Artigo 29 da Confissão Belga. Tenho certeza que alguns de vocês já sabem memorizadas quais são as marcas da igreja: a pura pregação do Evangelho, a administração fiel dos sacramentos, a administração fiel da disciplina. Percebam que essas marcas dizem respeito à congregações locais, os atributos se referem à igreja enquanto Católica, Universal, a igreja no seu senso mais abrangente. Porque a Igreja Católica se revela dentro das congregações locais, obviamente que existe uma superposição entre os atributos e as marcas da Igreja. Um comentarista disse bem que as marcas da igreja são exatamente os elementos pelos quais a igreja católica pode ser encontrada dentro da congregações locais. Existe uma conexão muito próxima entre as duas.

Continua…

Um Mártir da Reforma Conforta Sua Esposa (2)

Carta de Conforto de Guido de Brès a Sua Esposa

A graça e misericórdia do nosso bom Deus e Pai celestial, e o amor de Seu Filho, nosso Salvador Jesus Cristo, esteja contigo, minha caríssima amada.

Catherine Ramon, minha querida e amada esposa e irmã em nosso Senhor Jesus Cristo:  tua angúista e tristeza perturba um tanto a minha alegria e a felicidade do meu coração.  Por isso, escrevo isto para consolo de nós dois e, em especial, para teu consolo, visto que sempre me amaste com ardente afeição e porque apraz ao Senhor separar-nos um do outro.  Eu sinto mais intensamente o teu sofrimento por essa separação que o meu.  Eu te imploro para que não te perturbes demais com isso, por temor de ofender a Deus.  Quando casaste comigo, sabias que estavas desposando um marido mortal, com a vida incerta, e, ainda assim, agradou a Deus permitir-nos viver juntos por sete anos, dando-nos cinco filhos.  Tivesse o Senhor desejado que vivêssemos juntos por mais tempo, ele teria providenciado os meios.  Porém, não lhe agradou fazer isso e que sua vontade seja feita.

Agora, lembra-te de que eu não caí nas mãos dos meus inimigos por mero acaso, mas por meio da providência do meu Deus, que controla e governa todas as coisas, a menor assim como a maior.  Isso é demonstrado nas palavras de Cristo:  “Não temais.  Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.  Não se vendem cinco pardais por dois asses? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai.  Não temais, pois!  Bem mais valeis vós do que muitos pardais.”  Essas palavras da divina sabedoria que Deus conhece o número dos meus fios de cabelo.  Como, pois, o mal pode vir a mim sem a ordem e a providência de Deus?  É por isso que o Profeta diz que não há aflição na cidade que o Senhor não tenha desejado.

Muitos homens santos que vieram antes de nós consolaram-se em suas aflições e tribulações com essa doutrina.  José, que fora vendido por seus irmãos e levado ao Egito, diz:  “Vocês cometeram um mal, mas Deus o tornou em seu bem.  Deus enviou-me ao Egito antes de vocês para seu ganho” (Gênesis 50).  Davi também experimentou isso quando Simei o amaldiçoou.  E semelhantemente no caso de Jó e muitos outros.  E é por isso que os evangelistas escrevem tão cuidadosamente sobre os sofrimentos e a morte do nosso Senhor Jesus Cristo, acrescentando: “Isso aconteceu para que se cumprisse aquilo que foi escrito dEle.”  O mesmo deve ser dito sobre todos os membros de Cristo.

É bastante verdadeiro que a razão humana rebela-se contra essa doutrina e a enfrenta o quanto for possível, e eu mesmo tenho uma experiência bastante forte com isso.  Quando fui preso, dizia a mim mesmo: “Tantos de nós não deveriam ter viajado juntos.  Nós fomos traídos por esse ou por aquele.  Não deveríamos ter sido presos.”  Com tais pensamentos, tornei-me sobrecarregado, até meu espírito ser reanimado por meio da meditação na providência de Deus.  Então, meu coração passou a sentir grande paz.  Comecei, então, a dizer:  “Meu Deus, tu me fizeste nascer na época em que ordenaste.  Durante toda a minha vida, guardaste-me e preservaste-me de grandes perigos, e livraste-me de todos eles – e, se no presente, é chegada a minha hora de passar desta vida para ti, que tua vontade seja feita.  Não posso escapar das tuas mãos.  E, se eu pudesse, não o faria, visto que é minha felicidade conformar-se à tua vontade.”  Esses pensamentos tornaram meu coração novamente alegre.

E eu te suplico, minha querida e fiel companheira, que una-te a mim em gratidão a Deus pelo que ele tem feito.  Porque ele não faz algo que não seja justo e mui equânime, e deves crer que é para meu bem e minha paz.  Tens visto e sentido as lutas, aflições, perseguições e dores que suportei, e até experimentaste parte delas ao acompanhar-me em minhas viagens durante o período de meu exílio.  Agora, meu Deus estendeu sua mão para receber-me em seu bendito reino.  Eu o verei antes de ti e, quando agradar ao Senhor, tu me acompanharás.  Essa separação não é para sempre.  O Senhor também te receberá para unir-nos novamente em nosso cabeça, Jesus Cristo.

Continua…