Um Mártir da Reforma Conforta Sua Esposa (3)

Este não é o lugar da nossa habitação – que está no céu.  Este é apenas o local da nossa jornada.  É por isso que ansiamos por nosso verdadeira pátria, que é o céu.  Nós desejamos ser recebidos na casa do nosso Pai Celestial, ver nosso Irmão, Cabeça e Salvador Jesus Cristo, ver a nobre companha dos patriarcas, profetass, apóstolos e muitos milhares de mártires, em cuja companha espero ser recebido quando encerrar o percuso da obra que recebi do meu Senhor Jesus Cristo.

Eu te peço, minha caríssima amada, que te consoles com a meditação nessas coisas.  Considera a honra que Deus te atribuiu, ao dar-te um marido que não somente foi um ministro do Filho de Deus, mas era tão estimado por Deus que ele o permitiu possuir a coroa dos mártires.  É uma qualidade de honra que Deus jamais concedeu aos anjos.

Eu estou feliz; meu coração está leve e nada falta em minhas aflições.  Estou tão cheio da abundância das riquezas do meu Deus que tenho o bastante para mim e todos aqueles com quem posso conversar.  Assim, oro ao meu Deus que mantenha sua bondade comigo, seu prisoneiro.  Aquele em quem confiei o fará, pois descobri por experiência que ele jamais abandonará aqueles que confiaram nele.  Nunca imaginei que Deus pudesse ser tão gentil com uma criatura tão miserável quanto eu.  Eu percebo a fidelidade do meu Senhor Jesus Cristo.

Agora, estou praticando o que preguei a outros.  E devo confessar que, quando eu pregava, falava sobre as coisas que atualmente experimento como um cego fala das cores.  Desde que fui preso, tenho me beneficiado mais e aprendido mais que durante todo o restante da minha vida.  Eu estou em uma escola ótima: o Espírito Santo me inspira continuamente e me ensina como usar as armas neste combate.  Do outro lado está Satanás, o adversário de todos os filhos de Deus.  Ele é como um violento leão que ruge.  Ele me rodeia constantemente e procura ferir-me.  Todavia, aquele que disse “não temas porque eu venci o mundo” me faz vitorioso.  E, desde já, vejo que o Senhor coloca Satanás sob meus pés e sinto o poder de Deus aperfeiçoado em minha fraqueza.

Nosso Senhor me permite, por um lado, sentir minha fraqueza e pequenez, que nada sou senão um pequeno vaso na terra, mui fragíl, a fim de que ele me humilhe, para que toda a glória da vitória seja dada a ele.  Por outro lado, ele me fortalece e me consola de um modo inacreditável.  Eu tenho mais conforto que os inimgos do evangelho.  Eu como, bebo, e descanso melhor do que eles.  Estou encarcerdaro em uma prisão muito forte, muito fria, escura e sombria.  Por causa de sua escuridão, a prisão é conhecida pelo nome de “Brunain.”  O ar é terrível e ela fede.  Em meus pés e mãos, tenho grilhões, grandes e pesados.  Eles são um inferno contínuo, escavando meus membros até meus miseráveis ossos.  O comandante vem examinar meus grilhões duas ou três vezes ao dia, temendo que eu escape.  Há três guardas de quarenta homens em frente à porta da prisão.

Eu também recebo visitas do Monsieur de Hamaide.  Diz ele que vem para ver-me, consolar-me e exortar-me à paciência.  Entretanto, ele vem após o jantar, depois de ter vinho na cabeça e o estômago cheio.  Você pode imaginar o que são essas consolações.  Ele me ameaça e diz que se eu demonstrasse qualquer intenção de escapar, ele teria me acorrentado pelo pescoço, o tronco e as pernas, para que eu não pudesse mover um dedo; e ele diz muitas outras coisas nesse sentido.  Mas, apesar de tudo, meu Deus não retirou suas promessas, consolando meu coração, concedendo-me muito contentamento.

Porque tais coisas aconteceram, minha querida irmã e fiel esposa, eu te imploro que, em tuas aflições, encontres conforto no Senhor e entregue teus problemas a ele.  Ele é o marido das viúvas crentes e pai dos órfãos pobres.  Ele jamais te abandonará – disso posso te assegurar.  Conduza-te como uma mulher cristã, fiel no temor do Senhor, como sempre o fizeste, honrando por meio de uma vida e conversas excelentes a doutrina do Filho de Deus, que teu marido pregou.

Como sempre me amaste com grande afeição, peço que mantenhas esse amor com relação aos nossos filhinhos, instruindo-lhes no conhecimento do verdadeiro Deus e de seu Filho Jesus Cristo.  Seja pai e mãe deles, e cuida para que eles usem com honestidade o pouco que Deus te deu.  Se Deus te conceder o favor de permitir que, após minha morte, vivas na viuvez com nossos filhos, tudo ficará bem.  Se não puderes, e os bens faltarem, então encontre algum homem bom, fiel e temente a Deus.  E, quando eu puder, escreverei aos nossos amigos para que te protejam.  Penso que elese não te deixarão em necessidade de qualquer coisa.  Retorna à tua rotina habitual depois que o Senhor tiver me levado.  Tens contigo nossa filha Sarah, que logo será crescida.  Ela será tua companheira e te auxiliará em teus problemas.  Ela te consolará nas tribulações e o Senhor sempre estará contigo.  Saúda nossos bons amigos em meu nome, e peça que orem a Deus por mim, para que ele me dê força, articulação e a sabedoria e capacidade de preservar a verdade do Filho de Deus até o fim e o último fôlego da minha vida.

Adeus, Catherine, minha querida amada.  Eu oro a meu Deus para que te conforte e conceda contentamento segundo sua boa vontade.  Eu espero que Deus tenha me dado a graça de escrever para teu benefício, de tal forma que sejas consolada neste mundo miserável.  Guarda minha carta como lembrança de mim.  Está mal escrita, mas é o que posso, não o que desejo, fazer.  Recomenda-me à minha boa mãe.  Eu espero escrever algum consolo a ela, se agradar a Deus.  Saúda também minha boa irmã.  Que ela possa entregar sua aflição a Deus.  A graça esteja contigo.

Da prisão, 12 de abril de 1567.

Teu fiel marido, Guido de Brès, ministro da Palavra de Deus em Valenciennes, e presentemente prisioneiro pelo Filho de Deus no local supracitado.

Ele foi enforcado em 31 de maio de 1567.

Reflexão Final

Refletindo nesta carta, considere como seu irmão, Guido de Brès, tomava parte nos sofrimentos de Cristo.  Atravès de muitas tribulações, ele estava entrando no reino de Deus.  Ele deixou uma Confissão para nós, um sumário fiel do que a Escritura ensina.  Você morreria por essa Confissão?  Você sofreria por ela? Você abandonaria família e amigos pela doutrina no Antigo e do Novo Testamento sumarizada nesta Confissão?  Permita-me deixar-lhe com as palavras do nosso Senhor Jesus em Mateus 10.37-39:  “Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e vem após mim não é digno de mim.  Quem acha a sua vida perdê-la-á; quem, todavia, perde a vida por minha causa achá-la-á.”

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