Um Mártir da Reforma Conforta Sua Esposa (2)

Carta de Conforto de Guido de Brès a Sua Esposa

A graça e misericórdia do nosso bom Deus e Pai celestial, e o amor de Seu Filho, nosso Salvador Jesus Cristo, esteja contigo, minha caríssima amada.

Catherine Ramon, minha querida e amada esposa e irmã em nosso Senhor Jesus Cristo:  tua angúista e tristeza perturba um tanto a minha alegria e a felicidade do meu coração.  Por isso, escrevo isto para consolo de nós dois e, em especial, para teu consolo, visto que sempre me amaste com ardente afeição e porque apraz ao Senhor separar-nos um do outro.  Eu sinto mais intensamente o teu sofrimento por essa separação que o meu.  Eu te imploro para que não te perturbes demais com isso, por temor de ofender a Deus.  Quando casaste comigo, sabias que estavas desposando um marido mortal, com a vida incerta, e, ainda assim, agradou a Deus permitir-nos viver juntos por sete anos, dando-nos cinco filhos.  Tivesse o Senhor desejado que vivêssemos juntos por mais tempo, ele teria providenciado os meios.  Porém, não lhe agradou fazer isso e que sua vontade seja feita.

Agora, lembra-te de que eu não caí nas mãos dos meus inimigos por mero acaso, mas por meio da providência do meu Deus, que controla e governa todas as coisas, a menor assim como a maior.  Isso é demonstrado nas palavras de Cristo:  “Não temais.  Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.  Não se vendem cinco pardais por dois asses? E nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai.  Não temais, pois!  Bem mais valeis vós do que muitos pardais.”  Essas palavras da divina sabedoria que Deus conhece o número dos meus fios de cabelo.  Como, pois, o mal pode vir a mim sem a ordem e a providência de Deus?  É por isso que o Profeta diz que não há aflição na cidade que o Senhor não tenha desejado.

Muitos homens santos que vieram antes de nós consolaram-se em suas aflições e tribulações com essa doutrina.  José, que fora vendido por seus irmãos e levado ao Egito, diz:  “Vocês cometeram um mal, mas Deus o tornou em seu bem.  Deus enviou-me ao Egito antes de vocês para seu ganho” (Gênesis 50).  Davi também experimentou isso quando Simei o amaldiçoou.  E semelhantemente no caso de Jó e muitos outros.  E é por isso que os evangelistas escrevem tão cuidadosamente sobre os sofrimentos e a morte do nosso Senhor Jesus Cristo, acrescentando: “Isso aconteceu para que se cumprisse aquilo que foi escrito dEle.”  O mesmo deve ser dito sobre todos os membros de Cristo.

É bastante verdadeiro que a razão humana rebela-se contra essa doutrina e a enfrenta o quanto for possível, e eu mesmo tenho uma experiência bastante forte com isso.  Quando fui preso, dizia a mim mesmo: “Tantos de nós não deveriam ter viajado juntos.  Nós fomos traídos por esse ou por aquele.  Não deveríamos ter sido presos.”  Com tais pensamentos, tornei-me sobrecarregado, até meu espírito ser reanimado por meio da meditação na providência de Deus.  Então, meu coração passou a sentir grande paz.  Comecei, então, a dizer:  “Meu Deus, tu me fizeste nascer na época em que ordenaste.  Durante toda a minha vida, guardaste-me e preservaste-me de grandes perigos, e livraste-me de todos eles – e, se no presente, é chegada a minha hora de passar desta vida para ti, que tua vontade seja feita.  Não posso escapar das tuas mãos.  E, se eu pudesse, não o faria, visto que é minha felicidade conformar-se à tua vontade.”  Esses pensamentos tornaram meu coração novamente alegre.

E eu te suplico, minha querida e fiel companheira, que una-te a mim em gratidão a Deus pelo que ele tem feito.  Porque ele não faz algo que não seja justo e mui equânime, e deves crer que é para meu bem e minha paz.  Tens visto e sentido as lutas, aflições, perseguições e dores que suportei, e até experimentaste parte delas ao acompanhar-me em minhas viagens durante o período de meu exílio.  Agora, meu Deus estendeu sua mão para receber-me em seu bendito reino.  Eu o verei antes de ti e, quando agradar ao Senhor, tu me acompanharás.  Essa separação não é para sempre.  O Senhor também te receberá para unir-nos novamente em nosso cabeça, Jesus Cristo.

Continua…   

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