Missionárias: o que a missiologia reformada tem a dizer?

mulher no campo missionário

Em muitos países, as igrejas enviam homens e mulheres como missionários. Na maioria dessas situações, no entanto, essas mesmas igrejas também têm pastoras. Entretanto, nas igrejas de confessionalidade reformadas e presbiterianas, somente os homens atuam como pastores e, na maioria das vezes, apenas homens são enviados como missionários. No entanto, existem algumas igrejas reformadas e presbiterianas em que as mulheres estão atuando sob o título de “missionárias”. Como devemos avaliar essa prática? As igrejas reformadas podem enviar mulheres como “missionárias”?

 Definições

Para responder a essa pergunta com responsabilidade, precisamos definir nossos termos. Primeiro, precisamos encontrar uma definição de missão que expresse o que a Bíblia ensina. Se trabalharmos com passagens como Mateus 28:18-20, Marcos 16:9-20, Lucas 24:46- 49, Atos 1:8 e Romanos 10:14-15, chegamos a uma definição de missão parecida com:  

Missão é o envio oficial da igreja para ir e fazer discípulos pregando e testemunhando as boas novas de Jesus Cristo em todas as nações através do poder do Espírito Santo.

Os leitores interessados em ler mais sobre o desenvolvimento dessa definição podem se consultar no capítulo 2 do meu livro, For the Cause of the Son of God (disponível apenas em inglês).

Eu quero fazer duas observações sobre essa definição. Primeiramente, a missão tem a ver com a igreja. É o envio oficial da igreja. Nosso Senhor Jesus enviou seus apóstolos, e entendemos que esses apóstolos permaneceram como representantes de toda a igreja do Novo Testamento, presente e futuro. Através dos apóstolos, a igreja foi enviada por Jesus Cristo.

Outra coisa a notar é que a missão é uma tarefa oficial. O que quero dizer é que está intimamente ligado à ideia de ofício. Ela se conecta à ideia de que existem determinadas pessoas ordenadas para realizar certas funções na e através da igreja. Com relação à missão, a maioria das igrejas reformadas tem entendido que devem ser enviados como ministros missionários, pessoas que detém uma posição de autoridade e responsabilidade no governo da igreja. Através de sua pregação e testemunho, eles são embaixadores oficiais e anunciadores de Jesus Cristo. Eles autoritativamente o representam para o mundo. Quando os incrédulos os aceitam, eles estão aceitando a Cristo (Mateus 10:40). Quando os incrédulos os rejeitam, eles estão rejeitando a Cristo. Os incrédulos podem rejeitar a mensagem, mas eles não têm permissão para tal – há consequências eternas por fazer isso! Visto que vem do Senhor Jesus, há uma obrigação de obedecer ao chamado do evangelho emitido por seu oficial.

A tarefa de um missionário

O principal trabalho de um missionário é, então, pregar e dar testemunho. Pregar significa autoritariamente proclamar a Palavra de Deus. Exatamente como um pastor, um missionário foi treinado para fazer isso, embora frequentemente em contextos transculturais. Um missionário expõe as Escrituras e diz com autoridade: “Assim diz o Senhor!” Um missionário também é uma testemunha. Testemunhar significa usar oportunidades informais para engajar os incrédulos e compartilhar o evangelho com eles. Testemunhar frequentemente envolve diálogo e conversação.

Então, o que acontece quando as pessoas crêem através da pregação e do testemunho? Então, é o trabalho de um missionário discipular essa pessoa em preparação para a membresia da igreja. Um missionário tem que ensinar às pessoas o que significa ser um seguidor de Jesus Cristo e um membro de sua igreja. Quando essa pessoa está pronta para assumir a responsabilidade de ser membro da igreja de Jesus Cristo, o missionário é responsável por administrar o sacramento do batismo em um culto público.

Com o tempo, se Deus abençoar os esforços do missionário, uma nova igreja local começará a se desenvolver. O missionário será o primeiro líder desta nova igreja local. O missionário terá que treinar os primeiros presbíteros e diáconos. Até que esta nova igreja possa chamar seu próprio pastor, o missionário deve ser o único a administrar o sacramento da Ceia do Senhor na adoração pública.

Se olharmos biblicamente para o trabalho missionário, nossa conclusão deve ser que somente os homens podem servir como missionários oficiais da igreja. Os homens são chamados para pregar, não as mulheres (1 Timóteo 2:11-12). Como os sacramentos são uma pregação visível do evangelho, somente os homens são chamados para administrar o batismo e a Ceia do Senhor. De acordo com as Escrituras, apenas homens são chamados a ser líderes na igreja de Cristo (1 Coríntios 14:33-35). Seria, portanto, contrário ao ensinamento bíblico ter uma mulher missionária guiando e treinando presbíteros e diáconos. Não, se seguirmos os ensinamentos da Bíblia, devemos concluir que a igreja deve enviar homens fiéis e somente homens para pregar e testemunhar as boas novas de Jesus Cristo.  

O papel das mulheres no campo missionário

Mas isso significa que as mulheres não têm lugar algum no campo missionário? De modo nenhum! Primeiro, nunca devemos minar o importante trabalho que muitas mulheres fazem como esposas de missionários. Quando eu era missionário, minha esposa trabalhava ao meu lado, não apenas criando nossos filhos, mas também servindo à causa do evangelho na aldeia onde morávamos. Ela foi capaz de fazer certas coisas que eu não poderia fazer, ou pelo menos eu não poderia fazer de forma eficaz. Por exemplo, ela liderou um grupo de estudos bíblicos para as mulheres de nossa aldeia. Ela fez amizade com essas mulheres e foi capaz de ter um forte relacionamento com elas. Nesses relacionamentos, ela teria oportunidades de compartilhar o evangelho em um nível pessoal. Por causa do histórico delas de ter sofrido abuso sexual, eu não seria capaz de alcançar essas mulheres como minha esposa fez.

No entanto, não é apenas como esposas que as mulheres podem contribuir para a missão cristã. Há oportunidades para as mulheres servirem em papéis valiosos de apoio como educação, medicina ou desenvolvimento econômico. Esses tipos de áreas não são propriamente ou biblicamente para serem considerados como obra missionária. São áreas que auxiliam a missão. Eles apóiam a propagação do evangelho que está sendo feita pelos missionários oficiais. Por essa razão, nas igrejas reformadas, aqueles enviados para fazer este trabalho, homem ou mulher, têm sido tipicamente chamados “trabalhadores de ajuda humanitária”, não “missionários”. Essa é uma boa prática a ser mantida.  

Conclusão

Em muitas outras igrejas, a definição de missão foi ampliada para incluir muitas coisas fora da proclamação do evangelho. Isso está em parte na raiz da tendência de chamar tanto homens quanto mulheres de “missionários”. No entanto, nas igrejas reformadas, acreditamos que a Bíblia deve ser nosso único padrão para doutrina e vida. Se levarmos a Bíblia a sério sobre qual é a missão da igreja, devemos concluir que, biblicamente falando, somente os homens podem realmente ser enviados como missionários.

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Tradução:  André Lima

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O Sínodo de Dort e a Catequese

Synod of Dort

Palestra para a Conferência Dordt 400 Anos em Caruraru, PE, 23 março 2019.

Acontece quase toda semana em igrejas reformadas no Canadá e na Austrália. Geralmente é uma terça ou uma quarta-feira à noite. Os pais trazem todas as crianças entre as idades de doze e dezoito anos para serem ensinadas o catecismo por seu pastor. Na maioria das vezes, é o pastor que ensina; se a igreja não tem pastor, então um presbítero ou alguém pode ensinar. Numa igreja grande, o pastor pode não ser capaz de ensinar todas as aulas. Porque há tantos alunos, terá que haver outros ensinando com ele.

Em algumas partes da Austrália, essas aulas de catecismo são ensinadas pelo pastor na escola cristã durante o dia. Na minha congregação, como no Canadá, fazemos as aulas à noite.

Eu vou descrever com mais detalhes o que acontece onde eu sou pastor. Em Launceston, temos três aulas, todas na quarta-feira à noite. A primeira aula é das 19h às 1945h. Esta aula é para as crianças entre os 12 e os 15 anos – a turma júnior. Nesta aulas, as crianças aprendem a doutrina da Bíblia com ajuda do Catecismo de Heidelberg. Elas têm que memorizar uma parte do Catecismo a cada semana. Eu ensino o que aquela parte significa com a Bíblia.

A próxima aula é das 20h horas às vinte e 2045h. Esta aula é para jovens entre as idades de 15 e 18 – é a turma sênior. Esta classe e dividida em três anos. No primeiro ano, eles estudam os ensinamentos bíblicos da Confissão Belga. Eles memorizam alguns, mas memorizam passagens da Bíblia e não a Confissão Belga. No segundo ano, o foco está nos Cânones de Dort. Então, no terceiro ano, eles novamente estudam o Catecismo de Heidelberg.

A última aula começa às 21h. Está é a aula para aqueles que querem fazer a profissão pública de fé. Esta aula revisa principalmente os ensinamentos bíblicos das confissões reformadas, mas em minha igreja eu também ensino apologética aos nossos jovens por algumas semanas – tudo sobre como defender a fé cristã.

Como mencionei, esta é uma prática padrão em nossas igrejas reformadas no Canadá e na Austrália. Não sei como acontece aqui no Brasil. Mas se algo assim é feito no Brasil também em suas igrejas, eu me pergunto se está faltando a mesma coisa que está faltando no Canadá e na Austrália. As igrejas reformadas geralmente fazem bem em ensinar seus jovens. Mas a coisa que muitas vezes falta é os pais. Os pais muitas vezes não estão ensinando seus filhos. Nas mentes de muitos pais cristãos, a igreja tem que ensinar seus filhos, mas eles não precisam ensinar. Então, geralmente eles não fazem. É triste. Nossas igrejas poderiam ser mais fortes e mais fiéis se todos os pais ensinassem a seus filhos a doutrina cristã.

Aqui é bom prestar atenção ao Sínodo de Dort. O Sínodo discutiu muito mais coisas além de como lidar com os arminianos. Um dos assuntos discutidos no início do Sínodo foi a questão de como melhor ensinar os jovens da igreja. Em 30 de novembro de 1618, o Sínodo de Dort emitiu seu decreto sobre a melhor maneira de catequese. Nesta palestra, vamos ver o que Dort decidiu sobre esse assunto, por que e o que podemos aprender disso hoje.

Por que o Sínodo discutiu o ensino do catecismo

Precisamos começar com um pouco do contexto. A Reforma enfatizou fortemente a importância dos catecismos para o ensino da doutrina cristã. Havia muitos catecismos protestantes escritos e publicados no século XVI. Mas sem dúvida um dos mais populares foi o Catecismo de Heidelberg, escrito em 1563. Este catecismo foi traduzido pela primeira vez para o holandês no mesmo ano que apareceu em alemão, em 1563. Em pouco tempo, o Catecismo de Heidelberg tornou-se o catecismo das igrejas reformadas nos Países Baixos.

O Sínodo de Dort começou em 1618. Como mencionei, o Sínodo teve que lidar com o problema arminiano. Mas parte do problema arminiano tinha a ver com o Catecismo de Heidelberg. Os arminianos não gostaram o catecismo. Eles tinham questões teológicas, mas também disseram que era muito difícil para os jovens. Eles disseram que não tinha o suficiente da Bíblia. Então, quando chegamos ao Sínodo de Dort, o Catecismo de Heidelberg estava sob pressão.

Mas havia outras questões relacionadas à questão do ensino de catecismo de maneira mais geral. Antes do Sínodo de Dort, as igrejas reformadas holandesas não tinham aulas de catecismo como muitas igrejas reformadas têm hoje. Muitas vezes elas teriam uma breve aula na doutrina cristã para aqueles que estavam prestes a fazer a profissão pública da sua fé. Mas ter uma aula semanal regular para os jovens da igreja ensinada pelo ministro – isso era inédito.

O que eles tinham em alguns lugares era a pregação do catecismo. No Sínodo de Haia, em 1586, as igrejas reformadas holandesas concordaram que todas as tardes de domingo os pastores deveriam “explicar resumidamente o resumo da doutrina contida no Catecismo.” Isso se tornou para do Regimento da Igreja Reformada. Agora o problema era que, mesmo depois de 1586, em alguns lugares isso era mal feito. Em outros lugares simplesmente não foi feito. Este foi especialmente o caso em muitas igrejas pequenas no interior, nas aldeias. Portanto, houve falta de consistência nas igrejas reformadas holandesas que levaram ao Sínodo de Dort. Congregações inteiras estavam perdendo a instrução doutrinária regular, e isso obviamente incluía os jovens dessas congregações. E obviamente o futuro da igreja não é muito promissor se os jovens não estão sendo discipulados na fé cristã. Quando chegamos ao Sínodo de Dort em 1618, a questão é como melhorar o ensino da doutrina cristã nas igrejas reformadas holandesas.

A discussão do Sínodo

Quando chegou ao Catecismo de Heidelberg e ao treinamento de catecismo, o Sínodo de Dort discutiu e decidiu sobre vários assuntos. Eles tomaram uma decisão sobre a pregação do catecismo. Eles reafirmaram o que o Sínodo de Haia decidiu em 1586. O Sínodo tratou de todas as objeções dos Arminianos ao Catecismo. O Catecismo foi examinado e aprovado por todos os delegados, incluindo os estrangeiros, como estando em total concordância com a Bíblia. Mas nosso foco estará na discussão e decisão sobre a melhor maneira de ensinar a doutrina cristã.

O Sínodo dividiu esse assunto em duas partes. Eles observaram a melhor maneira de ensinar os jovens da igreja e, então, a melhor maneira de ensinar os adultos. Vamos apenas olhar para o que o Sínodo disse sobre a melhor maneira de ensinar aos jovens.

A discussão começou na sessão da manhã de 28 de novembro. Talvez vocês sabem que temos os Atos do Sínodo, mas os Atos nem sempre dão muitos detalhes sobre as discussões. No entanto, nesta situação, temos uma testemunha pessoal de um inglês chamado John Hales. Ele observou o sínodo em nome do embaixador britânico na Holanda e informou-o com cartas. Estas cartas foram publicadas mais tarde.

John Hales relatou o que observou na manhã de 28 de novembro de 1618. Johannes Bogerman, o presidente do Sínodo, fez pela primeira vez um discurso sobre a necessidade e a utilidade da catequese. Bogerman disse que o catecismo era a base e o fundamento da religião. Era o único caminhão para os princípios do cristianismo serem transmitidos. Bogerman falou de como a catequese era uma prática antiga que remontava à igreja primitiva. Quando a catequese é negligenciada, ele disse, a ignorância resulta entre os membros da igreja. A confusão também resulta quando a catequese não é praticada – as pessoas voltam para o catolicismo romano, ou caiem nos erros do anabatismo e em outros erros. Bogerman argumentou que a prática da catequese reformada era necessária agora mais do que nunca por causa da crescente agressividade dos jesuítas. Os jesuítas são diligentes no ensino da doutrina – para combatê-los, as igrejas reformadas devem ser ainda mais diligentes.

Após o discurso do presidente, os delegados foram solicitados a apresentar seus conselhos sobre o assunto. Os Atos incluem cópias do conselho dado pelas sete delegações estrangeiras presentes. Não vou passar por todos os detalhes desses documentos. Eu só quero notar um elemento importante encontrado em vários deles. Isso tem a ver com o papel dos pais. Por exemplo, os delegados de Hesse escreveram:

“Acreditamos e julgamos que esse trabalho de ensinar o catecismo aos jovens pertence aos ministros da Palavra de Deus, aos professores da escolar e, finalmente, aos pais.”

Pais que eram descuidados com esse trabalho deveriam ser admoestados pelo conselho a ensinar diligentemente e fielmente o catecismo a seus filhos e famílias. Da mesma forma, os delegados de Bremen aconselharam o Sínodo que eles reconheciam três tipos de instrução catequética: escolástica (nas escolas), eclesiástica (na igreja) e doméstica (nas famílias). Os pais, especialmente os pais (os homens), eram responsáveis pela catequese doméstica. O mesmo foi salientado pelos dois delegados de Genebra, Johannes Deodatus e Theodorus Trochinus.

Todos esse conselhos foram apresentados e discutidos em 28 de novembro de 1618. No dia seguinte, um sermão foi pregado por um dos delegados britânicos, Joseph Hall. Então, na sessão da manhã de 30 de novembro, o Sínodo voltou à questão de como ensinar o catecismo da melhor maneira. O presidente estava se reunindo com os diretores executivos do sínodo e, levando todos os conselhos em conta, eles trabalharam juntos para produzir uma decisão proposta. O presidente apresentou esta proposta e foi aprovada.

A Decisão do Sínodo

A decisão sobre a melhor maneira de ensinar os jovens tinha três partes. Deveria haver uma maneira tripla de catequizar os jovens das igrejas reformadas holandesas.

Tudo começou com o lar. Os pais tinham a responsabilidade de instruir seus filhos nos fundamentos da fé cristã num nível adequado à idade. Eles deveriam exortá-los à piedade. Os pais deveriam treinar seus filhos em oração. O Sínodo declarou que os pais têm a responsabilidade de levar seus filhos à igreja e depois rever o que ouviram, especialmente nos sermões catequéticos. Os pais devem ler a Bíblia com seus filhos e explicar a eles. Finalmente, o Sínodo decidiu que os pais também deveriam dar aos seus filhos passagens bíblicas para memorizar. Agora, e se houvesse pais que não conseguiram fazer essas coisas? O Sínodo decidiu que os pais negligentes deviam ser admoestados pelos ministros. Se eles não ouvissem os ministros, os presbíteros deveriam repreendê-los e, se necessário, colocá-los sob a disciplina da igreja. Deixar de ensinar seus filhos foi considerado um pecado pelo qual você poderia ser disciplinado. Foi tão sério!

Em segundo lugar, a catequese era a responsabilidade das escolas. Segundo o Sínodo de Dort, o Estado foi responsável pelo estabelecimento e manutenção da educação em geral. Os professores dessas escolas tinham que ser reformados. Eles tiveram que subscrever às confissões reformadas e ser treinados no ensino do catecismo. Dort decidiu que os professores deveriam ensinar o catecismo aos alunos duas vezes por semana e exigir que eles memorizassem. Além disso, os professores também foram obrigados a levar seus alunos para a pregação catequética dominical – presumivelmente, este requisito era para os alunos cujas famílias não eram membros da igreja. Deveriam haver três tipos de ferramentas de catequese para esse trabalho nas escolas: um simples catecismo básico para os alunos mais jovens, uma versão simplificada do Catecismo de Heidelberg (conhecido como Compêndio) e depois o Catecismo de Heidelberg para os alunos mais velhos. Os ministros tinham a responsabilidade de garantir que tudo isso acontecesse. Se houvesse alguma negligência, os ministros reportariam isso ao governo. O governo deve então substituir qualquer professor negligente da escola.

Finalmente, dizia o Sínodo, o catecismo era também da responsabilidade da igreja. Os jovens da igreja deveria ser ensinados pelos pastores, mas não nas aulas de catecismo como as conhecemos hoje. Em vez disso, os ministros deveriam ensinar os jovens, juntamente com o resto da congregação, através da pregação catequética ao nível dos jovens. Este ensino também deve ser seguido com revisão.

Há duas coisas que quero mencionar sobre essa decisão:

Primeiro, há o papel da escola. Naquele antigo contexto holandês, a escola era um instrumento da igreja e do estado. Além disso, a igreja e o estado estavam ligados de maneiras que nos são estranhas hoje em dia. Quando a história mudou nessa conexão foi quebrada. Por fim, a aula de catecismo ensinada na escola tornou-se a aula de catecismo ensinada pela igreja. Assim, as segundas e terceiras maneiras de ensinar o catecismo aos jovens acabaram sendo reunidas.

Em segundo lugar, quero destacar que o Sínodo seguiu o conselho dos delegados de Hesse e Bremen em dividir a instrução nessa maneira tripla. Mas há uma diferença importante. A diferença está na ordem. O Sínodo de Dort colocou o papel dos pais em primeiro lugar. Além disso, o Sínodo disse muito mais sobre a responsabilidade dos pais do que qualquer um dos conselhos recebidos.

Relevância Para Hoje

O Sínodo de Dort estava certo ao enfatizar o papel dos pais na catequese. Esta é uma ênfase bíblica. Poderíamos pensar em Efésios 6.4:

“E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor.”

Especialmente os pais são chamados a manter seus filhos em ordem e também a ensine-lhes a Palavra de Deus. Às vezes você ouve falar de igrejas que têm “pastores de jovens.” As igrejas reformadas também têm pastores de jovens – eles são chamados de “pais.” Os pais devem ser os pastores dos jovens da igreja de Cristo.

Além disso, os pais de uma igreja reformada prometem fazer isso. Quando seus filhos são batizados, os pais reformados prometem que instruirão seus filhos na doutrina cristã. Eles prometem que farão isso. Eles têm a responsabilidade primária, não o ministro. A igreja apóia o ensino dos pais, mas a igreja não substitui o ensino dos pais.

Os pais cristãos devem ensinar aos filhos doutrina cristã. Mas como? Deixe-me dar algumas sugestões práticas:

Primeiro de tudo, para ensinar seus filhos, você deve ter uma boa compreensão básica da própria doutrina cristã. Você tem que aproveitar os recursos que estão disponíveis para você. Se você está numa igreja reformada, onde existe a pregação catequética, faça o seu hábito de estar presente toda vez, para que possa ser fortalecido em sua compreensão da doutrina bíblica. Então você também precisa ler a Bíblia para si mesmo todos os dias. Você não pode ensinar os outros se você não está sendo ensinado a si mesmo. Isso acontece através do estudo da Palavra de Deus por si mesmo. Também quero recomendar a leitura de bons livros cristãos que ensinem doutrina. Se você precisar de uma sugestão para um livro como esse, pergunte ao seu pastor. Muitos pais não ensinam porque não têm a confiança ou sentem que têm o conhecimento necessário. Mas se você é um pai cristão, você tem o chamado e a responsabilidade de fazer isso; portanto você deve encontrar maneiras de reforçar a confiança e crescer em conhecimento.

Em seguida, todo lar cristão deve ter um tempo determinado para o culto familiar todos os dias. Em muitas casas reformadas no Canadá e na Austrália, isso acontece depois da refeição da noite. Mas não precisa ser depois de uma refeição. Só precisa de um tempo todos os dias quando a família se reunirá para adorar a Deus juntos. Durante este tempo, deve haver oração e canto. Deve haver leitura da Bíblia. Mas também deve haver um breve período de aprendizado da doutrina cristã com a ajuda de um catecismo.

Na minha família, geralmente usamos o Catecismo Menor de Westminster. Este é um catecismo das igrejas Presbiterianas, mas ensina a doutrina Reformada como o Catecismo de Heidelberg. Temos um livro baseado no Catecismo Menor de Westminister. Cada pergunta e resposta tem seis dias de ensino para acompanhar. Também usamos o Catecismo de Heidelberg com um livro semelhante. Às vezes também passamos pela Confissão Belga e pelos Cânones de Dort. Mas a cada dia, passamos talvez cinco minutes do tempo de adoração de nossa família aprendendo a doutrina cristã. Ao fazer isso, quando nossos filhos vão para as aulas de catecismo da igreja, eles já aprenderam muito dos princípios básicos.

Mas qualquer método que você usar, o importante é fazer! Pais, por favor, me ouçam: se você ama seus filhos, ensine-os os caminhos do Senhor. Nada é mais importante para o seu bem-estar!

Conclusão

Em conclusão, deixe-me dizer também que isso é muito importante para o futuro da igreja e o progresso do evangelho. Não teremos uma igreja forte sem famílias fortes. Famílias fortes são a espinha dorsal de igrejas fortes. Teremos famílias espiritualmente fortes quando os pais, especialmente os homens, os cabeças da família, levarem a sério sua responsabilidade para prover liderança espiritual e ensino para seus filhos. Quando tivermos isso, nossas igrejas estarão mais fortes. Nosso testemunho do evangelho ficará mais brilhante. E Deus será louvado com maior fervor.

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Tradução:  Jim Witteveen

 

 

O Sínodo de Dort e o Sábado

Synod of Dort

Palestra para a Conferência Dordt 400 Anos em Caruraru, PE, 22 março 2019.

Foi um domingo, dia 3 de agosto de 1924, na cidade de Jamestown, no estado de Michigan, nos Estados Unidos. O pastor Henry Wierenga nem sequer era ministro da Igreja Reformada Cristã de Jamestown por quatro anos. Esta foi sua primeira congregação. Naquela época, cada Igreja Cristã Reformada tinha um culto matutino e vespertino. No culto da noite, era costume de ouvir um sermão baseado no Catecismo de Heidelberg. No domingo, 3 de agosto de 1924, o Pr. Wierenga estava no Dia do Senhor 38. Ele estava pregando sobre o Quarto Mandamento.

Em seu sermão, o pastor Wierenga disse que o mandamento do sábado não era aplicável na era do Novo Testamento. Ele sustentou que o domingo não tinha status especial no Novo Testamento e não deveria ser visto como uma substituição do sábado judaico do Antigo Testamento. Cristo havia cumprido o sábado, que era inteiramente cerimonial. O quarto mandamento não tem exigência moral para os cristãos hoje. Portanto, ele disse, os cristãos não têm obrigação de considerar o dia como especial. Eles ainda podem optar por adorar neste dia, mas todos os dias eram igualmente sagrados. Se alguém desejasse, certamente poderia trabalhar no domingo ou fazer qualquer coisa que pudesse fazer em qualquer outro dia da semana.

O consistório do Pr. Wierenga não gostou do que estava ouvindo. Os presbíteros discordaram completamente de seu ministro. O assunto foi levado para um classis [a reunião das igrejas numa região]. O classis nomeou uma comissão para investigar. Esta comissão aconselhou os presbíteros em Jamestown a pedir ao Pr. Wierenga para pregar novamente no Dia do Senhor 38. Eles pediram a ele e ele fez isso no dia 7 de dezembro de 1924. Seu segundo sermão não foi melhor que o primeiro. Os presbíteros ainda estavam preocupados e assim foi a comissão do classis. Em dia 20 de fevereiro de 1925, a Igreja Reformada Cristã de Jamestown suspendeu seu pastor por ensinar doutrinas falsas. Então no dia 6 de março de 1925, ele foi deposto por Classis Zeeland.

Henry Wierenga decidiu recorrer de sua suspensão e deposição ao Sínodo Reformado Cristão em 1926. No entanto, seu recurso foi negado. Seu depoimento foi confirmado. O Sínodo Reformado Cristão concordou que foi certo e apropriado que Wierenga tivesse sido disciplinado por suas opiniões sobre o sábado. Durante todas essas discussões, uma decisão do Sínodo de Dort foi mencionada várias vezes. Foi no cerne do caso de Wierenga.

Naturalmente nos lembramos do Sínodo de Dort por causa dos Cânones de Dort. Os Cânones foram a resposta do Sínodo aos Arminianos. No entanto, muitas vezes esquecemos que este Sínodo discutiu muitas outras coisas. Eles decidiram em muitas outras coisas. O Sínodo começou em novembro de 1618 e terminou em maio de 1619. No dia 17 de maio de 1619, na 164a sessão, o Sínodo de Dort emitiu uma declaração doutrinária sobre o sábado. Infelizmente para nós hoje, esta é uma das contribuições mais negligenciadas do Sínodo de Dort. Mas essa declaração doutrinária era bem conhecida na Igreja Cristã Reformada na América do Norte em 1924 a 1926. Também era bem conhecido antes disso. De fato, a Igreja Cristã Reformada adotou a decisão do Sínodo de Dort sobre o sábado já em 1881.

O Sínodo de Dort Sobre o Sábado

Vamos apenas dar uma olhada rápida no que o Sínodo de Dort decidiu sobre o sábado. Vamos dar uma olhada rápida agora e depois voltar para um olhar mais atento depois. Existem seis pontos importantes:

  1. Existe no quarto mandamento da lei divina um elemento cerimonial e um elemento moral.
  2. O elemento cerimonial é o descanso do sétimo dia após a criação, e a estrita observância daquele dia imposta especialmente ao povo judeu.
  3. O elemento moral consiste no fato de que um certo dia definido é reservado para a adoração e tanto descanso quanto é necessário para a adoração e meditação santificado.
  4. O sábado dos judeus foi abolido, o dia do Senhor deve ser solenemente consagrado pelos cristãos.
  5. Desde a época dos apóstolos, este dia sempre foi observado pela antiga igreja católica [universal].
  6. Este dia deve ser tão consagrado ao culto que nesse dia descansemos de todas as obras servis, exceto aquelas que a caridade e a necessidade presente exigem; e também de todas a recreações que interferem na adoração.

Primeiro quero explicar o contexto dessa decisão. Então voltaremos e veremos a decisão em si. Também veremos se é bíblico e como é relevante para nós hoje.

Contexto

Após a Reforma na Europa nos anos 1500, houve um entendimento saudável nas igrejas reformadas sobre a importância da lei de Dues, incluindo o Quarto Mandamento. Eles entenderam que nossa salvação é somente pela graça. Nós somos salvos somente por causa do que Cristo fez por nós. Então, respondemos à graça de Deus com amor e gratidão expressos por uma vida cristã. Nós respondemos ao evangelho levando a lei de Deus a sério como guia para nossas vidas. O Espírito Santo nos faz amar a lei de Deus e quer seguí-la.

Por exemplo, o reformador Heinrich Bullinger pregou um sermão sobre o quarto mandamento. Ele explicou que o quarto mandamento ainda se aplica aos cristãos de hoje – através dele Deus nos manda descansar e adorar. Bullinger explicou que, se você faz o seu trabalho diário no domingo como se fosse um dia normal, está pecando contra o Quarto Mandamento. Ele também disse que se você fica na cama o dia todo e se recusa a ir adorar a Deus, você também está pecando contra o Quarto Mandamento. Bullinger não estava sozinho – este foi o caminho padrão para as primeiras igrejas reformadas entenderem o Quarto Mandamento.

Quando a Reforma chegou pela primeira vez aos Países Baixos, a região estava sob controle espanhol. Claro, isso significava que religiosamente era dominado pela Igreja Católica Romana. Mas eventualmente houve a revolta holandesa. Liderados por líderes como Guilherme, principe de Orange, os holandeses se rebelaram contra seus governantes espanhóis. Eles não foram bem sucedidos na parte sul da Holanda – o que hoje chamamos de Bélgica. Mas a história era diferente no norte, a região moderna que chamamos de Holanda. O importante para nós é que política e religião estivessem ligadas fortemente. Muitos dos líderes da revolta holandesa eram reformados. Depois da revolta holandesa, muitos do líderes políticos na Holanda continuaram a ser reformados.

No entanto, isso não significa que o Reino dos Países Baixos tenha sido realmente reformado. Em 1587, os membros da igreja reformada representavam apenas dez por cento da população dos Países Baixos. Em 1622, depois do Sínodo de Dort, ainda era menos de vinte e cinco por cento. Como você pode imaginar, ser uma minoria significava que as igrejas reformadas nem sempre eram capazes de influenciar a sociedade da maneira que queriam.

Isso também era verdade quando se tratava de honrar o quarto mandamento. A maioria dos holandeses ignorou esse mandamento. E os governantes fizeram pouco ou nada sobre isso. Antes do Sínodo de Dort, o domingo era como qualquer outro dia para a maioria das cidades holandesas. De fato, alguns pregadores reformados conservadores começaram a chamá-lo de “dia do pecado” (Zondendag em holandês) em vez de “domingo” (Zondag). As igrejas reformadas estavam preocupadas que a sociedade em que viviam não se importava com a boa lei de Deus, e seus governantes, mesmo que fossem reformados, não fizeram nenhum esforço para mudá-la.

Isso nos leva a 1619 e ao Sínodo de Dort. O tema do sábado surgiu bem tarde no Sínodo. Foi mencionado em 1 de maio de 1619, na 148a sessão. Os Cânones de Dort já haviam sido adotados. O texto revisado da Confissão Belga havia sido adotado. E finalmente, neste dia, o Catecismo de Heidelberg foi discutido e todos os teólogos concordaram que era bíblico. Agora, o interessante é que os Atos oficiais do Sínodo de Dort não mencionam nada sendo dito sobre o sábado nesta sessão. Nossa informação sobre isso vem da correspondência enviada por alguém da delegação britânica ao Sínodo.

Como vocês sabem, o Sínodo de Dort teve caráter internacional. Entre os países representados estava a Grã-Bretanha. Um de seus delegados foi Walter Balcanqual. Ele enviou relatórios a Senhor Dudley Carlton, que era o embaixador britânico na Holanda. No final do Sínodo, ele simplesmente enviou as anotações de seu secretário ao embaixador. Nestas notas da 148a sessão, lemos que os delegados britânicos haviam notado publicamente como o sábado era negligenciado na cidade de Dort. Quando eles tinham a palavra no Sínodo, eles expressaram que se ofenderam com a situação. Eles conclamaram o Sínodo a pedir aos magistrados civis que proibissem negócios no Dia do Senhor ou no sábado [o dia de descanso]. Não há nada nestas notas para nos dizer se houve mais discussão naquele momento. Isso nos diz, no entanto, que os Atos oficiais do Sínodo de Dort não registram absolutamente tudo o que foi discutido. Às vezes há lacunas.

Outros levantaram a questão depois. Havia apenas 17 presbíteros no Sínodo de Dort. Parte da razão para esse baixo número era que todo o trabalho do Sínodo seria feito em latim, e a maioria dos presbíteros não falava latim. Um dos presbíteros delegados de Classis Zeeland foi Josiah Vosberg. Ele era advogado, um homem bem-educado e, portanto, falava latim. Zeeland era uma província da Holanda onde a controvérsia do sábado era mais intensa. Josiah Vosberg estava do lado ortodoxo. Ele apresentou uma moção de que o Sínodo deveria levantar a questão e fazer uma declaração sobre a questão. Então, observe: além dos Cânones de Dort, essa foi uma das realizações mais importantes do Sínodo. E o movimento para isso não veio de um dos teólogos acadêmicos ou ministros, mas de um presbítero piedoso.

O envolvimento das delegações internacionais terminou no dia 9 de maio de 1619. Todos os delegados internacionais retornaram a seus países de origem, mas o Sínodo continuou. Sem os delegados estrangeiros, o Sínodo de Dort agora se concentrava em várias questões que só tinham a ver com as igrejas reformadas na Holanda. Uma dessas questões era o sábado, o dia de descanso. Desde que foi levantada como uma questão, o Sínodo decidiu discuti-lo apropriadamente.

Dois aspectos foram levantados no Sínodo. Havia a questão política e depois a questão teológica. A questão política veio primeiro. Na 163a Sessão, no dia 17 de maio, o Sínodo decidiu instar o governo holandês a desenvolver uma legislação nova e mais rigorosa a respeito do sábado. O Sínodo não especificou o que eles queriam dizer com “mais estrito.”

No que diz respeito à questão teológica, o Sínodo decidiu o seguinte:

“Quando a formulação sobre a remoção da desonra do sábado [foi discutida], é levantada uma questão sobre a necessidade de observar o sábado, que estava começando a ser agitado nas igrejas de Zeeland: os professores são convidados a considerar esta questão com os irmãos de Zeeland em uma conferência amigável, e para ver ser certas regras gerais podem ser preparadas e estabelecidas por comum acordo, dentro de cujos limites ambas as partes envolvidas com esta questão podem adiar até que a questão possa ser examinada pelo próximo Sínodo Nacional.”

Podemos notar que essas “regras gerais” foram feitas para ser uma resposta temporária. Eles esperavam que o assunto pudesse ser revisitado em outro sínodo em breve. No entanto, como se viu, não houve outro sínodo nacional na Holanda por muitos e muitos anos.

Os professores Johannes Polyander, Franciscus Gomarus, Anthonius Thysius, Sibrandus Lubbertus e Antonius Walaeus foram os escolhidos para se reunirem com os delegados de Zeeland. Agora uma das coisas surpreendentes é a rapidez com que eles trabalhavam. O Sínodo partiu para o almoço. Quando voltaram para a 164a sessão da tarde no mesmo dia, havia um conjunto de regras proposto. Não sabemos quanto tempo demorou a discussão naquela tarde no plenário do sínodo, mas sabemos o resultado. As Regras para a Observância do Sábado ou Dia do Senhor foram oficialmente adotadas pelas igrejas reformadas holandesas.

Um Olhar Mais Atento Nas Regras

Agora quero dar uma olhada mais de perto no que o Sínodo de Dort decidiu. Cada uma das regras é curta, mas elas realmente dizem muito. Vou passar por cada uma das regras, explicá-las e fazer alguns comentários.

  1. Existe no quarto mandamento da lei divina um elemento cerimenial e um elemento moral.

Na teologia, falamos de uma divisão tripla da lei. Esta é uma antiga divisão que foi reconhecida mesmo muito antes da Reforma. Na lei de Deus, há aspectos cerimoniais, morais e civis. A lei cerimonial era para Israel e apontada à frente para Cristo, Isso incluía coisas como os sacrifícios pelo pecado. Depois que Cristo cumpriu a lei cerimonial, ainda podemos aprender com ela, mas não se aplica a nós como aplicou a Israel. A lei civil é semelhante – foi para Israel como uma nação em seu próprio contexto. Existem princípios gerais que ainda são importantes para nós, mas os detalhes nem sempre senão vinculativos para nós. No entanto, a lei moral é sempre obrigatória. A lei moral é resumida nos Dez Mandamentos. Quando falamos do quarto mandamento, há aspectos cerimoniais, mas também aspectos morais. Somente os aspectos morais são obrigatórios para nós como cristãos hoje.

  1. O elemento cerimonial é o descanso do sétimo dia após a criação, e a estrita observância daquele dia imposta especialmente ao povo judeu.

Então, o que é o aspecto cerimonial do quarto mandamento exatamente? O Sínodo de Dort reconheceu que existem duas partes. O primeiro é o dia de descanso original – originalmente o sétimo dia, o dia que chamamos de “sábado.” Naturalmente, é mostrado no nome deste dia em português. Esta dia foi o dia em que Deus descansou de seu trabalho de criação, estabelecendo assim um padrão. O segundo aspecto cerimonial é a “estrita observância” que foi dada no Antigo Testamento para este dia. Por exemplo, havia um mandamento em Êxodo 35.3 para que os israelitas não acendessem fogo no sábado. Isso é “estrita observância.”

  1. O elemento moral consiste no fato de que um certo dia definido é reservado para a adoração e tanto descanso quanto é necessário para a adoração e meditação santificado.

Em seguida, o Sínodo identificou o aspecto moral permanente do Quarto Mandamento. Aqui há três coisas que precisam ser mencionadas. Existe o princípio de um “dia definido.” Um dia por semana deve ser separado ou considerado sagrado. Em segundo lugar, este dia definido deve ser reservado para a adoração. É um dia de adoração. Mas terceiro, é também um dia de descanso. Então, juntando tudo, temos um dia definido para descanso e adoração. Isso é permanentemente obrigatória para nós.

  1. O sábado dos judeus foi abolido, o dia do Senhor deve ser solenemente consagrado pelos cristãos.

Esta parte da decisão trata do progresso da história da redenção. O Sínodo reconheceu que o sábado dos judeus (isto é, o repouso e adoração estritos no sétimo dia) foi abolido. O dia a ser honrado agora mudou para o primeiro dia da semana – é o “dia do Senhor” como a Escritura o chama em Apocalipse 1.10. É o dia em que Cristo ressuscitou dos mortos. É o dia que mudou tudo, inclusive o calendário. Nós “solenemente santificamos” este dia em honra de Cristo. Como fazemos isso é mencionado no sexto ponto.

  1. Desde a época dos apóstolos, este dia sempre foi observado pela antiga igreja católica [universal].

História e tradição são importantes para os crentes reformados. Embora não seja obrigatório para nós, reconhecemos que, se há uma longa história de pensar de uma determinada maneira sobre uma questão teológica, não devemos jogá-la fora sem pensar cuidadosamente. Precisamos entender por que os crentes da história pensavam como pensavam. Precisamos comparar o pensamento deles com o que a Bíblia diz. Quando se trata do Quarto Mandamento, o Sínodo de Dort assinalou que, desde o tempo dos apóstolos, a igreja tem observado o domingo como o Dia do Senhor. Há uma longa tradição de entender que o Quarto Mandamento ainda se aplica a nós hoje, mas agora se aplica ao primeiro dia da semana em vez do sétimo.

  1. Este dia deve ser tão consagrado ao culto que nesse dia descansemos de todas as obras servis, exceto aquelas que a caridade e a necessidade presente exigem; e também de todas a recreações que interferem na adoração.

O último ponto da decisão do Sínodo fala sobre como separar adequadamente o Dia do Senhor. O foco do dia é estar em adoração. Isso ecoa a abordagem da primeira parte do Dia do Senhor 38 no Catecismo de Heidelberg. O catecismo não disse nada sobre o descanso físico, mas sim o Sínodo. A fim de manter o foco do dia inteiro (não apenas os cultos da igreja) em Deus, devemos descansar “de todas as obras servis.” O que são “obras servis”? Esse é um termo com uma história antiga na igreja cristã. Foi usado na tradução latina da Vulgata de Levítico 23.7. Referia-se originalmente ao trabalho físico do tipo feito pelos servos. Na história, se você tivesse servos, o trabalho servil geralmente significaria todo tipo de trabalho. Você faria com que seus servos fizessem quase tudo.  A versão inglesa de Levítico 23.7 traduz a expressão hebraica [traduzida na Almeida Revista e Atualizada como “obra servil”] como “trabalho ordinário,” e eu acho que capta para hoje o que “obras servis” realmente são. É um trabalho comum. É o trabalho que você seria chamado a fazer em qualquer outro momento. Tradicionalmente, isso seria trabalho físico, mas em nossos dias, vai se expandir naturalmente para incluir todos os tipos de trabalho. Agora, existem duas exceções. Existem obras de caridade. Se você tem que trabalhar para ajudar alguém num domingo, você não está quebrando o Quarto Mandamento – na verdade, você deveria! Isso foi ensinado por nosso Senhor Jesus em Mateus 12.9-13. Ele disse que é lícito fazer o bem no sábado. Então também há obras de necessidade. Precisamos de ministros para trabalhar na pregação, precisamos de policiais para impor a lei, precisamos de enfermeiros e médicos para cuidar dos doentes. Eles têm que fazer esse trabalho também no Dia do Senhor. Não é pecado. Finalmente, podemos notar que o Sínodo disse que todas as recreações que interferem na adoração também estão excluídas. Então, como exemplo, você pode dar um passeio no domingo, mas não pode dar um passeio quando Deus o chama para estar na igreja.

Deixe-me fazer mais duas observações gerais sobre essas regras. Primeiro, o Sínodo de Dort não entrou em detalhes exaustivos sobre todos os aspectos da interpretação do Quarto Mandamento. Ainda há espaço para pequenas diferenças de opinião. Por exemplo, sabemos que dois dos professores envolvidos na redação dessas regras tinham visões diferentes sobre a origem da guarda do sábado. Thysius não sabia de onde vinha, mas Gomarus insistiu que não vinha da criação/Paraíso, mas veio do tempo de Israel no deserto. Essas regras são concisas, mas não excessivamente precisas.

No entanto, segundo, elas são precisas onde precisam ser, e onde nós precisamos estar precisos. Elas distinguem e identificam com precisão os aspectos cerimoniais e morais do Quarto Mandamento. Elas identificam o Dia do Senhor como um dia para ser separado para descanso e adoração. Estas regras falam claramente de um trabalho excepcional: obras de caridade e necessidade. Estas são regras sábias e bíblicas para a igreja de Cristo.

Relevância para Hoje

As igrejas reformadas estão hoje ligadas a esta decisão doutrinal do Sínodo de Dort? As igrejas reformadas subscrevem aos Cânones de Dort. Elas mantêm as decisões do Sínodo de Dort que foram feitas contra os arminianos ou remonstrantes. No entanto, isso não significa que elas mantenham todas as outras decisões tomadas por Dort.

Podemos voltar para a Igreja Cristã Reformada na América do Norte por um momento. Em 1881, um Sínodo da Igreja Cristã Reformada decidiu adotar a decisão de Dort sobre o sábado. Daquele ponto em diante, a decisão de Dort oficialmente também pertencia a eles. Eles consideraram a decisão como uma interpretação oficial do Dia do Senhor 38 do Catecismo de Heidelberg. Não apenas todo oficial, mas também todo membro estava ligado a ela. Eu não estou ciente de nenhuma outra igreja ter feito isso. Desde que a Igreja Cristã Reformada fez isso, quando o pastor Henry Wierenga começou a ensinar falsamente sobre o Quarto Mandamento, eles puderam facilmente suspender e depô-lo.

Hoje, como igrejas reformadas, poderíamos adotar a decisão de Dort, se quiséssemos. Se houvesse uma necessidade ou um desejo, uma igreja poderia fazer uma proposta para assumir o controle e torná-la nossa. Mas também podemos simplesmente recebê-la como parte de nossa história e tradição. Podemos e devemos ler, estudar e aprender com isso. Os pastores podem usá-la como um guia para o seu ensino e pregação – eu certamente fiz isso no meu ministério. Como mencionei, é uma declaração sólida do pensamento reformado sobre o Quarto Mandamento.

Há mais uma coisa que quero dizer sobre a relevância dessa decisão. Especialmente na América do Norte, às vezes você ouvirá as pessoas falarem sobre duas visões diferentes do sábado. Elas dirão que há a visão “puritana” do sábado, que é muito rigorosa, e então há a visão “continental” do sábado, que é mais flexível. Daniel Hyde fez um bom estudo sobre isso e comparou a decisão do Sínodo de Dort com alguns pensamentos puritanos sobre o Quarto Mandamento. Ele concluiu que “Dort pode ser chamado de uma posição moderadamente puritana no sábado.” Eu concordo. Historicamente falando, a chamada “visão continental” é muito mais rigorosa do que muitas pessoas modernas percebem. E eu diria que é bíblica.

Conclusão

Eu cresci no Canadá. Eu me lembro de uma época em que todas as lojas estavam fechadas no domingo. Havia uma lei chamada “Lei do Dia do Senhor.” Isso refletia a herança cristã do Canadá. Quando os descrentes começaram a pressionar o governo para remover a Lei do Dia do Senhor, muitas igrejas e cristãos protestaram. Eu até tenho um artigo em casa escrito por Billy Graham tentando argumentar pela santidade do domingo, mantendo-o como um dia de descanso e adoração. Em 1985, a Suprema Corte do Canadá anulou a Lei do Dia do Senhor. Eles disseram que era inconstitucional, que era uma violação da liberdade de religião. Algo estranho aconteceu depois disso. Muitos cristãos começaram a fazer compras aos domingos, trabalhando aos domingos, indo a eventos esportivos profissionais aos domingos. Em pouco tempo, a maioria das igrejas cristãs ensinava que o Quarto Mandamento se aplicava apenas aos judeus. Você vê o que aconteceu? Muitas igrejas mudaram. Por quê? Por causa de uma melhor visão da Bíblia? Não, porque essas igrejas se tornaram como a cultura. Então elas mudaram sua explicação da Bíblia para se adequar à sua cultura. Quando isso acontece, uma igreja está perdendo seu sal e luz.

E isso vai ter um impacto na pregação do evangelho. O filósofo Francês Voltaire disse que se você quer destruir o cristianismo, tem que destruir o sábado, o dia de descanso. Os franceses tentaram fazer isso no tempo da Revolução Francesa, mas falharam. Quão irônico que os próprios cristãos tentassem destruir algo que levaria à própria destruição de nossa fé! Se o domingo não for mais santificado como um dia de descanso e adoração, as igrejas onde o evangelho da salvação é proclamado estarão constantemente vazias. As pessoas sempre encontrarão algo melhor para fazer do que ir à igreja regularmente.

Irmãos, Deus nos deu dez mandamentos, não nove. O Sínodo de Dort nos lembrou que o Quarto Mandamento ainda é a vontade de Deus para nossas vidas como seu povo. Vamos ouvir a lei de Deus – é bom para nós, é bom para a sociedade, é bom para o evangelho e serve para a glória de Deus.

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Tradução:  Jim Witteveen

 

O Sínodo de Dort e o sábado

Synod of Dort

No dia 17 de maio de 1619, na 164a sessão, o Sínodo de Dort emitiu uma declaração doutrinária sobre o sábado:

  1. Existe no quarto mandamento da lei divina um elemento cerimonial e um elemento moral.
  2. O elemento cerimonial é o descanso do sétimo dia após a criação, e a estrita observância daquele dia imposta especialmente ao povo judeu.
  3. O elemento moral consiste no fato de que um certo dia definido é reservado para a adoração e tanto descanso quanto é necessário para a adoração e meditação santificado.
  4. O sábado dos judeus foi abolido, o dia do Senhor deve ser solenemente consagrado pelos cristãos.
  5. Desde a época dos apóstolos, este dia sempre foi observado pela antiga igreja católica [universal].
  6. Este dia deve ser tão consagrado ao culto que nesse dia descansemos de todas as obras servis, exceto aquelas que a caridade e a necessidade presente exigem; e também de todas a recreações que interferem na adoração.

9 considerações sobre os dois cultos no domingo

Por que o Conselho convoca a congregação para cultuar duas vezes?

1. Não há uma ordem direta da Bíblia para fazer isso. Mas tenha em mente que também não há uma ordem direta para as mulheres participarem da Ceia do Senhor. Às vezes, derivamos práticas na Igreja a partir do ensino bíblico e suas implicações. Algumas coisas em nosso culto são extraídas das Escrituras por uma finalidade boa e necessária.

2. No Antigo Testamento, havia sacrifícios de manhã e de noite, veja Números 28.4, Esdras 3.3 e outras passagens.

3. No início da era do Novo Testamento, os primeiros cristãos se reuniam no Dia do Senhor tanto pela manhã quanto à noite, continuando a prática que tinham como judeus. Por isso, a igreja do Novo Testamento não mudou o que sempre foi feito pelo povo de Deus. Eles mantiveram o princípio de cultuar duas vezes, embora a vinda de Cristo significasse uma mudança para cultuar duas vezes no Dia do Senhor.

4. Não existe apenas um argumento bíblico/teológico, existem também boas razões práticas. Uma seria que ter dois cultos ajuda a manter a característica do Dia do Senhor como um dia de adoração.

5. Outra boa razão prática seria que o Espírito trabalha com a Palavra para transformar vidas. Assim, seria prudente ter mais, e não menos, oportunidades para o povo de Deus sentar-se ante a pregação.

6. Quando temos dois cultos, há uma maior oportunidade para os pastores fornecerem uma dieta equilibrada de pregação e ensino para a congregação. A congregação se beneficia de receber mais ensinos e uma gama mais ampla de textos ou assuntos (como na pregação do Catecismo).

7. Existe uma qualidade de vida espiritual que se desenvolve e floresce em torno dos dois cultos a Deus no Dia do Senhor. Há algo sobre estar na igreja com o povo de Deus duas vezes aos domingos que tem um efeito maravilhosamente positivo, produzindo não apenas indivíduos cristãos, mas toda uma cultura cristã, um estilo de vida em comunidade que se distingue pelo seu cuidado, qualidades cristãs e um zelo missionário que alcança o mundo inteiro.

8. Finalmente, o conselho convoca a congregação para cultuar duas vezes, esperando que desejemos adorar duas vezes. Por que algum crente não quereria cultuar a Deus e se submeter aos meios da graça (Palavra e Sacramento) tantas vezes quanto possíveis?

9. As últimas razões não nos obrigam a ter dois cultos como tal (em outras palavras, poderíamos usar essas razões para defender três ou quatro cultos). No entanto, o princípio de “mais, e não menos” justifica ter dois cultos contra apenas um.


Tradução: Gabriel Reis.

Revisão: Iraldo Luna.

Guido de Brès e a Comunhão para os doentes

Os sacramentos foram designados por Deus para fortalecer nossa fé em Jesus Cristo. À medida que vivemos, experimentamos provações e dificuldades que às vezes desafiam nossa fé. Nesses momentos, podemos nos alegrar porque nosso Pai nos deu os sacramentos para nos nutrir e nos firmar nas promessas do evangelho. Historicamente, no entanto, as Igrejas Reformadas Canadenses retiveram o sacramento da ceia do Senhor daqueles que estão reclusos e incapazes de frequentar um culto público regular. Aqueles que mais podiam se beneficiar dele, não puderam. Até recentemente.

Decisões Recentes

Em 2006, a Igreja Reformada Canadense em Smithers trouxe uma abertura para um Conselho de Classes do Pacific West, solicitando que a ordem da Igreja fosse emendada para acomodar a administração da Ceia do Senhor àqueles que estão reclusos por causa de doenças ou velhice. As revisões sugeridas sustentavam que o sacramento seria administrado no contexto de um culto, por um ministro e todas as outras ordenanças na ordem da Igreja com relação à admissão ao sacramento seriam seguidas. O Conselho de Classes do Pacific West dos dias 10 e 11 de outubro de 2006 concordou em passar a proposta de Smithers para o próximo Sínodo Regional do West. O Sínodo Regional do West de 2006 considerou o assunto e concordou em encaminhá-lo ao Sínodo Geral de Smithers em 2007.

O Sínodo de 2007 decidiu que não era necessário revisar a ordem da Igreja para acomodar a administração da Ceia do Senhor aos reclusos. O Sínodo concordou e assumiu estas considerações do Sínodo Regional West de 2006:

1) Não é o número de participantes nem o local que constitui um “culto público”, mas a presença de portadores de cargos junto com os membros da congregação (“a forma da igreja”).

2) O atual reconhecimento da forma da igreja em múltiplos lugares pode, por extensão, ser aplicado a circunstâncias extraordinárias na congregação, no sentido de que o consistório poderia ter um culto de adoração para aqueles que não podem comparecer ao encontro normal. Em princípio, isso não difere de um consistório que convoca a congregação por duas vezes (por exemplo, quando o prédio é pequeno demais, necessitando de dois cultos consecutivos) ou convocando a congregação em dois locais (por exemplo, quando os membros moram muito longe).

3) Os consistórios são os responsáveis pelo cuidado pastoral dos membros. Se, no julgamento da reunião, um membro recluso exigir o encorajamento contido na Ceia do Senhor, o consistório deve fazer o que puder para proporcionar esse encorajamento.

4) Embora a administração da Ceia do Senhor pertença às igrejas em comum, ainda é discutível se é necessária ou não uma revisão de certos artigos da ordem da Igreja.

Essencialmente, então, o Sínodo de 2007 aceitou que a igreja de Smithers e outras igrejas Reformadas Canadenses fornecessem a Ceia do Senhor aos reclusos. Apesar de três recursos, o Sínodo de 2010 confirmou a decisão do Sínodo de 2007.

Uma Discussão Antiga

Esta questão já foi discutida em nossa história. Recentemente me deparei com ela em um debate que foi realizado entre Guido de Brès e um bispo católico romano. O autor da Confissão Belga estava preso em Valenciennes, aguardando a data de sua execução. Ele havia sido acusado de celebrar a Ceia do Senhor de maneira contrária à ordem do governo. Em 22 de maio de 1567, François Richardot veio se encontrar e debater com de Brès. Ele esperava fazê-lo mudar de ideia e também trazê-lo de volta para o rebanho do católico romano.

O debate centrava-se nas diferenças entre a Santa Ceia bíblica e a missa católica romana. Com meio caminho andado do tempo da sessão naquele dia, de Brès disse o seguinte:

Na medida que você diz que a missa é a Ceia do Senhor Jesus Cristo, eu realmente queria saber por que o padre a realiza de modo diferente daquele que Cristo fez e ordenou que fosse feito. Cristo estava sentado à mesa com seus discípulos. Ele pregou e admoestou com a Palavra de Deus. Ele não estava disfarçado em uma indumentária como um padre. Ele não falava em uma língua desconhecida. Ele tomou o pão e, depois de dar graças a Deus, o partiu e distribuiu aos seus discípulos. E também tomou o cálice, dizendo: “Bebei dele todos”. Ele não estava num altar, mas numa mesa. Ele não fez um sacrifício, mas comeu e ordenou comer.

A estratégia de de Brès nesse debate era constantemente ressaltar as diferenças entre o modo como a Ceia do Senhor era celebrada na Escritura e a forma como a missa era feita pela Igreja Católica Romana.

Em sua resposta, Richardot se agarrou ao que achava ser a fraqueza da posição de de Brès nas palavras citadas acima. De Brès havia apontado que era uma refeição comunitária, celebrada por Cristo e seus discípulos. O Bispo Richardot respondeu:

…Eu digo que a missa é algo maravilhosamente louvável, de modo que toda vez que é dito que a comunhão será realizada, eu a desejo ansiosamente. E se alguém pedir dela, não lhe deve ser recusado. Se deve haver um sacerdote que tenha a devoção para celebrá-la, deveria ele ser impedido desta bênção porque não há outros comungantes? Isso não seria de todo razoável. E certamente você está muito perto de ser condenado por crueldade e desumanidade. Perdoe-me por falar assim sobre você, por recusar o sacramento aos pobres enfermos, o que é algo totalmente repugnante à caridade fraternal e a maneira da igreja primitiva, que permitiu a participação dos doentes.

Para nossos propósitos, é a menção da comunhão para os doentes que chama nossa atenção. O bispo alegou que as igrejas reformadas proibiam dar a Ceia do Senhor àqueles que estão reclusos e que isso era cruel, desumano, falta de amor e sem ligação com a igreja primitiva.

Pouco tempo depois, de Brès voltou a este tópico e deu sua resposta ao bispo:

Quanto a você nos acusando de desumanidade por não dar o sacramento aos doentes, confesso que isso já foi feito algumas vezes. Mas se é lícito, baseado no que eu disse, não vejo uma boa razão. Não é um sacramento destinado a ser dado a apenas uma pessoa, pois é uma comunhão de muitos que deveriam recebê-lo juntos, e não apenas um. No entanto, eu não seria muito rigoroso se algum crente estando doente solicitasse o recebimento deste sacramento e se vários outros estivessem preparados para participar com aquele que faz o pedido, e se fosse o costume da igreja, não, digo eu, condenaria tal costume.

À primeira vista, essa resposta parece refletir alguma ambiguidade sobre o assunto.

Uma Posição Bem Ponderada

Por um lado, de Brès era um estudante minucioso dos pais da igreja primitiva. Seu extenso conhecimento é revelado não apenas em seus debates e outros escritos, mas também na Confissão Belga e em suas muitas alusões, citações e paráfrases da patrística. Quando diz: “Confesso que isso já foi feito algumas vezes”, ele está dando alguma deferência à igreja primitiva. No entanto, ele acrescenta rapidamente que é difícil racionalizar a legalidade dessa prática. Essa declaração deve ser entendida no contexto, no entanto, de um número de práticas aberrantes. Por exemplo, na igreja medieval havia a prática de reservar pão / hóstias consagradas para serem recebidas mais tarde pelos enfermos. Eles receberiam em particular, normalmente sem qualquer explicação ou qualquer acompanhamento da administração da Palavra (ver Institutas de João Calvino, 4.17.39).

De Brès insistiu que o sacramento, por sua própria natureza, não foi projetado para ser tomado por uma pessoa sozinha. É chamado de “comunhão” por um bom motivo. Uma comunhão de um só seria um oximoro.

No entanto, de Brès reconheceu o perigo de ser excessivamente rigoroso em relação àqueles que estão doentes e reclusos. A prática normal deveria ser a comunhão com todos os outros crentes em um culto público. Mas ele não excluiu a possibilidade de permitir que um crente levasse a Ceia do Senhor para fora daquele contexto, desde que isso fosse feito em um ambiente comunitário e com a aprovação da igreja. Ele não julgaria esse tipo de celebração cuidadosamente circunscrita para aqueles que estivessem reclusos.

O bispo deixou esta questão em particular neste momento do debate, assim nada mais foi dito. Se tivéssemos a oportunidade de perguntá-lo, sem dúvida, de Brès diria mais. O que exatamente ele diria tem que continuar sendo uma questão de especulação. Infelizmente, além da Confissão Belga, de Brès escreveu apenas dois livros principais e alguns outros textos e, até onde eu sei, esta questão não é abordada em nenhuma dessas obras.

O que está claro é que, sob condições cuidadosamente delineadas, o autor da Confissão Belga estava preparado para permitir que aqueles que estavam reclusos recebessem a comunhão. Naturalmente, Guido de Brès não tem a última palavra sobre este assunto. Ele era apenas um homem e os homens podem errar – veja sua própria declaração no artigo 7 da Confissão Belga: nada tem “o mesmo valor da verdade de Deus”. No entanto, o registro histórico demonstra que a posição tomada pelo Sínodo de 2007 cai dentro do leque de posições tomadas pelos nossos antepassados reformados sobre este assunto.


Tradução: Gabriel Reis.

Revisão: Tainá Alves.

Seu Culto é Reformado?

Reformed Worship Service

Algum tempo atrás, eu fui à um culto de uma igreja vizinha que não era reformada.O que mais me chocou foi aonde era dada maior ênfase no culto. Os procedimentos começaram com música. Uma banda estava no palco com cantores. Eles cantaram muito louvores e canções de adoração. Por fim, o líder de louvor disse, “Agora que o culto terminou, nosso pastor vai subir e dar sua mensagem”. A “mensagem” foi o clímax, seguindo a “experiência de adoração” emocional. O foco nessa igreja pareceu claro o suficiente.

Um dos distintivos das Igrejas Reformadas é a doutrina dos meios de graça. Essa doutrina, quando conscientemente preservada, também faz com que o culto reformado seja distintivo. Você pode dizer que está em uma igreja reformada quando a doutrina dos meios de graça é levada a sério e aplicada no culto da igreja. O foco em um Culto Reformado está sobre o ministério da Palavra e os Sacramentos. Vejamos como essas coisas trabalham como meios de graça e como elas precisam permanecer como nosso foco.

O primeiro dos meios de graça é a leitura e pregação da Palavra de Deus. A Escritura é aberta, lida e exposta. A lei de Deus é aplicada à congregação. A congregação é lembrada de seu pecado e miséria. Isso tem o duplo propósito de nos fazer humildes na presença de um Deus Santo e então também nos conduzir à cruz de Jesus Cristo. Essa aplicação da Lei acontece na leitura dos Dez Mandamentos, mas também através da leitura e pregação de outras Escrituras. O Evangelho é também aplicado para o conforto da congregação. O povo de Deus é encorajado com as promessas de seu amor e salvação em Jesus. Isso ocorre em muitas igrejas reformadas no momento da Segurança do Perdão, mas também, é claro, através da leitura e proclamação da Palavra de Deus. Finalmente, a vontade de Deus como expressa em sua Lei também é trazida à uma congregação grata à Deus. Nós somos ensinados acerca da boa vontade de Deus para nossas vidas e como demonstrar nosso amor por esse Deus gracioso que também nos ama tão profundamente. Isso também acontece através da leitura e pregação da Escritura.

A Escritura é um meio de graça porque ela é como Deus planeja abençoar seu povo quando Ele se reúne com eles. Seu desígnio é abençoá-los através de Sua Palavra, a voz do Bom Pastor é ouvida. É ouvida quando Ele repreende, quando Ele conforta, e quando ele instrui. Quando feito fielmente, nós não meramente ouvimos uma voz humana quando um ministro prega. A pregação fiel da Palavra de Deus é a Palavra de Deus — “Por isso também damos, sem cessar, graças a Deus, pois, havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade), como palavra de Deus, a qual também opera em vós, os que crestes.” (1 Ts 2.13).

O outro meio de graça é a administração dos sacramentos. As igrejas reformadas administram os sacramentos do batismo e da Ceia do Senhor, segundo o mandamento de Cristo e seus apóstolos. O batismo é administrado como o sacramento de iniciação. Através do batismo, nós somos publicamente admitidos na aliança de Deus e na igreja. Através do batismo, nós recebemos o sinal e o selo das promessas da aliança de Deus. Deus está demonstrando-se gracioso para com aqueles que recebem o batismo. Todavia, em cada batismo, a congregação inteira é encorajada com a graça de Deus. Nós somos todos lembrando de como nosso Deus gracioso primeiro aproximou-se de nós e nos tomou para Si. Veja, batismo não diz respeito apenas àqueles envolvidos no batismo (aquele que está sendo batizado, os pais [NT* o autor é um irmão pedobatista]), mas à toda congregação!

A Ceia do Senhor é administrada como o sacramento de nutrição. Para muitos é comum ver a Ceia do Senhor meramente como um memorial, como colocar flores sobe o túmulo de um ente querido que partiu. A visão reformada inclui um aspecto memorial, mas é muito mais rica. Nesse sacramento, Jesus Cristo está verdadeiramente presente em sua divindade, majestade, graça, e Espírito. Ele está presente para abençoar os crentes que participam do pão e vinho na fé. Ele irá revigorar e nutri-los, fortificá-los na fé. Através da Ceia do Senhor somos verdadeiramente alimentados pelo próprio Salvador.

Os sacramentos são meios de graça porque também é assim que Deus quer abençoar seu povo, quando eles se reúnem com Ele. Ele quer continuar lhes dando o oposto do que eles merecem em vista de sua contínua pecaminosidade. Ele reivindica esses pecadores para Si e alimenta-os com comida e bebida espiritual. Além disso, nosso Deus gracioso sabe que a Palavra é frequentemente recebida com fraqueza. Ouvir apenas é difícil para nós como criaturas pecadores. Assim, em Sua graça, Ele adiciona estes dois sacramentos muti-sensoriais do batismo e da Ceia do Senhor.

Agora, por que estes meios de graça estão no centro do Culto Reformado? Por que essas coisas são o foco e ênfase? Isto remonta ao pacto da graça. O pacto é um relacionamento entre Deus e Seu povo. Quem permanece no centro desse relacionamento? Nem eu, nem você. Não, Jesus Cristo permanece no centro como o Mediador do pacto. Ele é aquele “lubrifica as engrenagens” deste relacionamento. Se um culto é reflexo desse relacionamento pactual, Cristo e Seu ministério não deveriam permanecer no centro? O foco não deveria estar sobre Cristo quando Ele ministra a nós com a Palavra e sacramentos, quando ele “lubrifica as engrenagens”? Há uma lógica distintivamente reformada para nosso foco sobre os meios de graça e isso tem tudo a ver com o pacto da graça.

É claro que ainda há um lugar para nossa resposta em oração e cânticos. O relacionamento pactual é bidirecional e Deus espera que Seu povo irá respondê-lo. Em virtude do pacto, tem de haver uma via de mão dupla em nossos cultos. Isso não é um problema. Ninguém jamais disse que oração e cânticos deveriam ser eliminados do culto reformado. A pergunta é: onde está nosso foco? Qual é o centro? Qual é a principal atração em um Culto Reformado? A resposta distintivamente reformada, extraída da Escritura, sempre foi: os meios de graça, o ministério da Palavra e sacramento. Com uma ênfase sobre o ministério da Palavra e sacramento, os meios de graça, seu culto será Reformado — o que quer dizer, bíblico.

TRADUÇÃO: Victor Gomes