Reformado = Anti-Revolucionário 

Pierre Elliot Trudeau

Meu pai era piloto da Polícia Montada Real do Canadá e, quando menino, eu tinha muito orgulho dele. Em seu trabalho, ele voou com algumas pessoas famosas (e infames). Provavelmente o mais famoso de todos foi o primeiro-ministro do Canadá. Isso aconteceu por volta de 1980. O primeiro-ministro Pierre Elliot Trudeau tirou férias em turnê pelo Ártico. Estávamos morando em Inuvik, NWT. Meu pai foi encarregado de levar o primeiro-ministro Trudeau de Yellowknife para vários outros pontos do Ártico. Achei isso bem legal. 

Alguns anos depois, eu estava tentando impressionar alguns amigos em minha nova escola em Alberta. Eu disse a eles que meu pai tinha voado com o primeiro-ministro Trudeau. Eu realmente não prestei muita atenção à política naquela época. Recém-chegado na cidade, não fazia ideia de que o PM era extremamente impopular em Alberta. Então, fiquei surpreso quando meus amigos responderam: “Bem, por que seu pai não fez um favor a todos nós e o expulsou do avião enquanto ele estava voando?” 

Talvez você possa perdoar esses tipos de sentimentos vindos de aspirantes a caipiras de 9 anos. À medida que envelhecia, desenvolvi um nível semelhante de animosidade em relação ao primeiro-ministro, especialmente por sua amizade com Fidel Castro, sua introdução do bilinguismo oficial e o Programa Nacional de Energia. Hoje o Canadá tem Justin Trudeau (filho de Pierre) como primeiro-ministro. A hostilidade em relação a ele entre alguns é igual, se não maior, à que existia em relação a seu pai. Mas também aqui na Austrália, há muito ressentimento, raiva e até ódio contra o governo, especialmente no nível estadual.

É lamentável que essas atitudes estejam criando raízes entre os cristãos reformados. Essas atitudes não são bíblicas e não têm lugar na vida dos discípulos de Jesus. A frustração é compreensível, mas o desrespeito não é justificável. Nos últimos dois anos, tenho visto expressões de desrespeito que vão desde xingamentos a pedidos de derrubada revolucionária do governo. Há um espírito rebelde e revolucionário na sociedade e temo que muitos cristãos reformados tenham sido vítimas dele.

É bom voltar à nossa história e aprender como os crentes reformados no passado viveram sob governos frustrantes e até perigosos. Tomemos como exemplo Guido de Brès, autor da Confissão Belga. Ele viveu sob a tirania do rei Filipe II da Espanha. O rei Filipe viu como seu chamado promover a fé católica romana erradicando o protestantismo. As áreas sob seu domínio, especialmente no que hoje chamamos de Holanda e Bélgica, tiveram os maiores números de martírios no século XVI. Como um influente pastor reformado, Guido de Brès estava em sua “lista dos mais procurados” e eles eventualmente o prenderam e o enforcaram.

Guido de Brès escreveu mais do que apenas a Confissão Belga. Ele escreveu dois livros importantes, um contra os católicos romanos e outro contra os anabatistas. Este último foi intitulado La racine, source et fondement des Anabaptistes (A Raiz, Fonte e Fundação dos Anabatistas). Infelizmente, apenas uma pequena parte foi traduzida para o inglês e foi publicada em 1668. Neste livro, de Brès assume os erros de vários anabatistas em seis áreas. Uma dessas áreas tinha a ver com o governo.

O capítulo sobre o Magistrado trata especificamente de um ensinamento problemático de Menno Simons (o fundador dos menonitas): sua rejeição da pena capital. Simons argumentou que se um criminoso se arrependesse e se voltasse para o Senhor antes de sua execução, como outro cristão poderia matá-lo? Como isso refletiria o exemplo compassivo de Cristo, “o manso Cordeiro”? E se um criminoso impenitente tivesse sua vida terminada pela pena capital, seu arrependimento e fé seriam assim impedidos. Este capítulo em La racine é principalmente uma polêmica contra essa posição, argumentando que os governos de fato têm o direito e a responsabilidade de usar a espada para defender a justiça, independentemente do arrependimento do criminoso.

Por mais interessante que isso seja, eu olhei para este capítulo em termos do que de Brès escreve sobre a atitude cristã adequada em relação ao governo. Achei esta seção particularmente interessante:

Agora devemos observar diligentemente que São Paulo chama o Magistrado de “servo de Deus” e “ordenado por Deus” sete vezes. Pois o Espírito Santo quis falar assim, porque sabia que viriam contraditórios em tempos posteriores, que por seu orgulho queriam abolir e aniquilar inteiramente as autoridades que Deus havia estabelecido para o bem dos homens. E quando ele diz que os Magistrados são ordenados por Deus, é porque eles já foram ordenados por Deus através de sua palavra na igreja dos Patriarcas e Israelitas. Assim, somos levados a entender claramente que esta ordenança que Deus fez anteriormente sobre o Magistrado sobre seu povo se mantém hoje na Igreja de Cristo. Estou falando sobre o governo político neste lugar. 

Escrevendo a Tito, ele também o ordena dizendo: “Admoeste-os que se sujeitem aos principados e potestades, que obedeçam aos governadores, que estejam sempre prontos para toda boa obra, que não falem mal de ninguém” (Tit. 3:1-2). São Pedro também ensina o mesmo, dizendo: “Sujeitem-se a toda ordem humana por amor de Deus, ao Rei como superior, aos Governadores como os enviados por ele para castigar os malfeitores e louvar os bons; pois esta é a vontade de Deus” (1 Pe 2:13-15). No mesmo lugar: “Dê honra a todos, ame a fraternidade, tema a Deus, honre o Rei” (1 Pe 2:17). Todas essas sentenças apostólicas devem ser cuidadosamente consideradas, pois por elas vemos que os apóstolos reconhecem a autoridade e o poder primários dos magistrados. Nestes foram constituídos por Deus para ter poder para matar os malfeitores que lhes resistem. Por isso, Paulo diz aqui aos da Igreja: “Se você fizer algo errado, tenha medo. Pois o príncipe não carrega a espada em vão. Ele é o servo de Deus para trazer justiça e ira aos que praticam o mal” (Rm 13:4). Por “espada” o Apóstolo entende o poder da espada para tirar o sangue daqueles que o merecem.

Ao contrário de alguns dos anabatistas que eram revolucionários e sediciosos, de Brès defendia uma visão positiva do governo civil. Essa visão não era exclusiva de de Brès, mas simplesmente ecoava o ensino reformado padrão tanto na Holanda quanto em outros lugares. 

Há algumas coisas a serem observadas em relação a essa citação de La racine . 

Em primeiro lugar, observe como isso está bem fundamentado nas Escrituras. Isso é típico de de Brès em La racine e em seus outros escritos, incluindo a Confissão Belga. 

Em segundo lugar, o que ele escreve aqui é consistente com o que apareceu anteriormente no artigo 36 da Confissão.  La racine foi publicado em 1565; a Confissão Belga em 1561. Não houve mudança na abordagem positiva de de Brès aos magistrados civis. De Brès em 1565 ainda teria concordado com sua Confissão de 1561: “Além disso, todos – não importa de que qualidade, condição ou classificação – devem estar sujeitos aos oficiais civis, pagar impostos, mantê-los em honra e respeito, e obedecê-los em todas as coisas que não estão em desacordo com a Palavra de Deus.” 

A imutabilidade de sua posição está ligada à terceira consideração: entre 1561 e 1565, as coisas não melhoraram sob o rei Filipe II. Na verdade, eles se tornaram muito piores . Durante este período de tempo, de Brès estava vivendo em exílio auto-imposto na França; era muito perigoso para ele em sua terra natal, os Países Baixos. A tirania do rei Filipe II e seus subalternos só ficaram mais fortes e sua perseguição mais intensa. Mas, neste escrito final de de Brès sobre o governo civil, ele mantém a mesma atitude positiva de honra e respeito que fez na Confissão Belga. Um ano depois seria martirizado.

De Brès viveu e morreu sob verdadeira tirania. O que estamos vivenciando hoje não chega nem perto e sugerir que sim revela uma falta de consciência histórica. Mesmo que estejamos convencidos de que vivemos sob um governo tirânico, devemos tomar nota de La racine de de Brès e sua Confissão Belga. Ser revolucionário e antigovernamental não tem nada a ver com a Bíblia. Se você quer ser reformado (o que quer dizer ‘bíblico’), então seja anti-revolucionário. Seja contracultural – respeite seu governo e ore por eles, assim como as Escrituras nos ensinam a fazer.

Tradução: Rafael Soletti

Dez maneiras de ajudar seus filhos a amar e permanecer na Igreja

Se você tem filhos e está em uma igreja fiel que prega o evangelho, não gostaria que eles amassem essa igreja e permanecessem nela? Venho sugerir uma lista com maneiras para auxiliar os pais cristãos a ajudarem seus filhos a fazer isso.

Devo dizer que compartilho isso em primeiro lugar porque, se sua igreja for fiel, o evangelho está em jogo. É de vital importância para nossos filhos permanecer em uma igreja onde o evangelho de Cristo é proclamado por meio da Palavra e dos Sacramentos. Os filhos são discipulados para Cristo na igreja. Mas, nunca podemos tomar isso como certo.

Em segundo lugar, escrevo isso para me lembrar de como é importante discipular meus próprios filhos. Também devo dizer que nunca há qualquer garantia de que seus filhos permanecerão na igreja, ou que eles responderão às promessas do evangelho. Você pode fazer tudo certo, mas o Espírito Santo precisa regenerar o nosso coração, e o coração de nossos filhos também. É tudo pela graça. Porém, sob uma perspectiva humana, se você fizer uma, algumas ou todas essas dez coisas, certamente aumentará as chances de seus filhos permanecerem e amarem sua igreja focada no evangelho.

  1. Seja positivo sobre a igreja e seu relacionamento com ela. Certifique-se de que seus filhos ouçam e vejam sua atitude positiva. Lembre-se de orar regularmente pela igreja e pelos pastores, presbíteros e diáconos.
  2. Frequente regularmente os cultos de adoração. Comunique aos seus filhos que você precisa do ministério da Palavra e dos sacramentos e eles precisam também. Sempre é possível crescer. O chamado de Deus para a adoração aplica-se à sua família como também a todas as outras pessoas.
  3. Comprometa-se com sua igreja local. Envolva seus filhos o máximo possível nas atividades de sua igreja local.
  4. Torne a frequência à igreja obrigatória para todos em sua casa. Se eles não querem ir à igreja, deveriam ir de qualquer maneira (a menos que estejam doentes, é claro). Existem algumas coisas que podemos não ter vontade de fazer (como ir ao dentista), mas elas são boas para nós e nossos pais nos forçaram porque nos amavam. Ame seus filhos da mesma maneira.
  5. Da mesma forma, torne obrigatória a frequência ao catecismo. Se eles não quiserem ir, novamente você tem que insistir. Apoie os esforços de seu pastor para catequizar seus filhos. Verifique se eles estão memorizando o catecismo, verifique se eles estão fazendo o dever de casa e certifique-se de que estão preparados para a aula.
  6. Cante em casa o que você canta no culto público. Comunique aos seus filhos que você realmente aprecia os salmos e hinos da igreja. Que você deseja que eles adotem essas músicas e as valorizem. Ensine a seus filhos o significado do que cantam.
  7. Tanto quanto possível, more próximo o suficiente da igreja para que possa se envolver de forma significativa na vida da igreja. Se você mora mais longe, procure e aproveite as oportunidades para se aproximar.
  8. Ensine seus filhos sobre a importância de dar os primeiros frutos ao Senhor. Fale com seus filhos sobre contribuições financeiras para a igreja. Certifique-se de dar exemplo a eles, contribuindo fielmente. Seja um alegre doador!
  9. Mande-os para a escola cristã que as outras crianças da congregação frequentam. Isso os ajudará a desenvolver conexões e amizades com colegas na comunidade da igreja.
  10. Dê orientações úteis com relação a seus amigos e cônjuges em potencial. Incentive-os a ter amigos crentes e a encontrar cônjuges que amem ao Senhor, mas que também amem sua igreja.

Em resumo, faça tudo o que puder para comunicar que a igreja não é uma organização humana ou um clube onde você pode entrar e sair quando quiser. Deixe claro que a igreja é sua mãe espiritual (Gálatas 4.6), o corpo de Cristo (Efésios 1.22-23), a noiva pela qual Cristo morreu e que ele ama (Efésios 5.25), e a coluna e baluarte da verdade (1 Timóteo 3.15).

Tradução: Rev. Alan Kleber Rocha

“Sou muito grato pela obediência ativa de Cristo.”

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No final do século XIX e início do XX, estava ocorrendo uma épica batalha épica pelo evangelho na América do Norte. Quando eu digo “o evangelho”, eu realmente estou falando das boas novas de salvação em Jesus Cristo somente. O liberalismo teológico estava assolando igrejas que, no passado, havia sido firmes na fé bíblica, igrejas como a Igreja Presbiteriana nos EUA. Dentre outras coisas, o liberalismo estava negando a inerrância das Escrituras, negando milagres, como a concepção virginal de Cristo e sua ressurreição física, e a necessidade de uma expiação penal substitutiva. Deus levantou vozes proféticas ponderosas para protestar. Entre elas, destacou-se J. Gresham Machen (1881 – 1937).

Machen é mais conhecido pelo seu livro, Cristianismo e Liberalismo, de 1923. Machen habilmente argumentou que o liberalismo não era cristianismo bíblico – o livro é relevante ainda em nossos dias, pois apenas os nomes mudaram. Anteriormente um professor de Novo Testamento no histórico Seminário de Princeton, Machen entrou em conflito com o status quo e acabou se tornando uma figura protagonista na fundação do Seminário Teológico de Westminster, na Filadélfia.  Sua batalha contínua contra o liberalismo também o levou a ser despojado da Igreja Presbiteriana, em 1935. No ano seguinte, Machen esteve à frente da formação de uma nova igreja: a Igreja Presbiteriana da América. Posteriormente, essa igreja ficou conhecida como a Igreja Presbiteriana Ortodoxa.

No fim de 1936, Machen tinha 55 anos de idade. Desde há muito, ele tinha sido um ávido trilheiro e alpinista, mas aquele inverno o deixou com saúde má. Apesar de um resfriado e uma tosse horrível, Machen foi ao oeste, para a Dacota do Norte, para falar para algumas igrejas, durante o recesso de Natal do Seminário de Westminster. Sua saúde deteriorou rapidamente durante seu período nas pradarias. Em pouco tempo, ele estava no hospital, em Bismarck, com pneumonia. No dia 1º de janeiro de 1937, Machen alternava entre estar consciente e inconsciente. Durante um de seus momentos de lucidez, ele ditou um breve telegrama para seu amigo no Westminster, o Prof. John Murray. O telegrama foi breve: “Sou muito grato pela obediência ativa de Cristo. Nenhuma esperança sem ela.” Essas foram suas últimas palavras registradas. Ele morreu por volta das 19:30 do Dia de Ano Novo de 1937.

Cristianismo e Liberalismo pode estar no topo da pilha do legado literário de Machen, mas seu telegrama final definitivamente contém suas palavras mais citadas. Elas mercem um olhar mais próximo. O que Machen quis dizer com “a obediência ativa de Cristo” e por que ela lhe era tão encorajadora? Seres humanos pecaminosos têm um problema dobrado. Primeiro, por causa de nosso pecado, nós temos uma dívida infinita para com a justiça de Deus, que não podemos pagar. Segundo, mesmo que que nossa dívida fosse paga, nós ainda seríamos confrontados com a exigência da lei de Deus de contínua obediência daí em diante. Jesus Cristo endereça ambas. Como Ele sofreu a ira de Deus em nosso lugar, Ele pagou nossa dívida infinita. Na teologia, nós chamamos isso de sua obediência passiva (ou sofredora). Com seus 33 anos de observância perfeita da lei, Cristo também nos obteve uma obediência perfeita da lei de Deus. Nós chamamos isso de obediência ativa. Sua vida justa é imputada ou creditada a nós – conforme a Confissão Belga diz no artigo 23: “[…] sua obediência é nossa quando cremos nele”.

Romanos 5:19 fala diretamente dessa verdade do evangelho: “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos.” O Espírito Santo aponta para dois homens. Um, Adão, foi desobediente e seu fracasso carregado de culpa foi imputado a seus descendentes. O outro, Jesus Cristo, foi obediente e suas obras justas foram imputadas aos crentes para sua justificação. Quando nós temos Cristo como salvador, nós não temos apenas o perdão de nossos pecados, mas também a justiça positiva aos olhos de Deus. Com base nas duas coisas, Deus nos declara reconciliados consigo. Ele nos vê como perdoados E perfeitamente obedientes.

Esse ensino do evangelho estava fresco na mente de Machen quando ele estava morrendo porque, umas duas semanas antes, ele havia feito uma transmissão no rádio sobre o assunto. Antes disso, ele o havia discutido com John Murray no seminário. No que ele sabia que estava morrendo, ele olhou não para sua vida de imperfeição em seguir a Cristo, mas para a vida perfeita que Cristo havia vivido por ele. Machen encontrou conforto em saber que ele apareceria diante do trono de Deus perfeitamente trajado com a justiça de Jesus. Sua conta não havia apenas tido toda dívida cancelada, mas preenchida com os méritos imputados de Cristo. Você consegue ver por que Machen terminou com “Nenhuma esperança sem ela”. Nós podemos até inverte: “A obediência ativa de Cristo: muita esperança com ela!”

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Tradução:  Natan Cerqueira

Como se beneficiar da Ceia do Senhor

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Antes de uma recente celebração da Ceia do Senhor em minha igreja, aproveitei a oportunidade para dar um pouco de ensino extra sobre como os cristãos podem e devem se beneficiar do sacramento da Ceia do Senhor.

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Antes de ler a Forma para a celebração, quero apenas dar algumas instruções extras por um momento sobre como se beneficiar da Ceia do Senhor. Você já foi à Ceia do Senhor e depois se afastou dela e se perguntou: “O que foi aquilo? O que eu deveria ganhar com isso? ”Você já se perguntou:“O que deveria acontecer comigo na Ceia do Senhor?”

Bem, a Ceia do Senhor é um sacramento destinado a fortalecer nossa fé. É fácil pensar que isso é algo que está fora de nossas mãos. Nós vamos sentar à mesa, e então apenas esperarmos e vermos o que acontece. É como se estivéssemos esperando que um raio espiritual nos atingisse e recarregasse nossa bateria espiritual. Pode acontecer e pode não, mas está fora de nossas mãos. Mas nada acontece. Nós comemos o pão, bebemos o vinho, mas nada muda. Nós não sentimos nada. Nossa fé não é fortalecida.

Amados, temos que lembrar como esse sacramento funciona. Não funciona como mágica. Não é que sejamos apenas participantes passivos esperando que Deus faça o que Ele faz conosco para fortalecer nossa fé. Não, devemos nos envolver ativamente. Você tem que vir para a mesa com o coração e a mente envolvidos. Quando Jesus disse: “Faça isso em memória de mim” (Lucas 22:19), ele quis que tivéssemos consciência do que estamos fazendo. Se você vai se beneficiar da Ceia do Senhor, precisa pensar no que está acontecendo. Caso contrário, é apenas um ritual vazio. E um ritual vazio não tem benefício – muito pelo contrário!

Deixe-me fazer isso concreto e prático para você. Observe-me enquanto eu parto o pão. Essa é uma parte importante do sacramento. Estou realmente partindo esse pão, e então o corpo de Cristo foi realmente quebrado para pagar por seus pecados. Quando o pão chegar até você, pegue-o na mão e olhe por um momento. É real. Então o corpo de Cristo que carregou seus pecados é real. Esse corpo foi realmente pregado na cruz por você. Experimente isso. Sinta na sua boca. É real: diga a si mesmo, é assim que o evangelho é real. Faça a mesma coisa com o vinho. Observe-me enquanto eu derramo o vinho no copo. Estou realmente servindo vinho de verdade. Foi assim que o sangue de Cristo foi real e foi derramado por seus pecados. Quando você pegar o copo, olhe para ele; cheire se quiser. Pense nisso. É real – então Cristo teve uma verdadeira coroa de espinhos na cabeça e produziu sangue real. Quando você bebe o vinho, diga a si mesmo: este é o vinho real e o sangue de Cristo que derramou de suas mãos, pés e laterais também é real. Aquele sangue real garantiu minha salvação. É tudo verdade, é tudo real.

Amados, é assim que sua fé será fortalecida nesta manhã. Veja os elementos reais do pão e do vinho e, através deles, veja como o evangelho é real.

Missionárias: o que a missiologia reformada tem a dizer?

mulher no campo missionário

Em muitos países, as igrejas enviam homens e mulheres como missionários. Na maioria dessas situações, no entanto, essas mesmas igrejas também têm pastoras. Entretanto, nas igrejas de confessionalidade reformadas e presbiterianas, somente os homens atuam como pastores e, na maioria das vezes, apenas homens são enviados como missionários. No entanto, existem algumas igrejas reformadas e presbiterianas em que as mulheres estão atuando sob o título de “missionárias”. Como devemos avaliar essa prática? As igrejas reformadas podem enviar mulheres como “missionárias”?

 Definições

Para responder a essa pergunta com responsabilidade, precisamos definir nossos termos. Primeiro, precisamos encontrar uma definição de missão que expresse o que a Bíblia ensina. Se trabalharmos com passagens como Mateus 28:18-20, Marcos 16:9-20, Lucas 24:46- 49, Atos 1:8 e Romanos 10:14-15, chegamos a uma definição de missão parecida com:  

Missão é o envio oficial da igreja para ir e fazer discípulos pregando e testemunhando as boas novas de Jesus Cristo em todas as nações através do poder do Espírito Santo.

Os leitores interessados em ler mais sobre o desenvolvimento dessa definição podem se consultar no capítulo 2 do meu livro, For the Cause of the Son of God (disponível apenas em inglês).

Eu quero fazer duas observações sobre essa definição. Primeiramente, a missão tem a ver com a igreja. É o envio oficial da igreja. Nosso Senhor Jesus enviou seus apóstolos, e entendemos que esses apóstolos permaneceram como representantes de toda a igreja do Novo Testamento, presente e futuro. Através dos apóstolos, a igreja foi enviada por Jesus Cristo.

Outra coisa a notar é que a missão é uma tarefa oficial. O que quero dizer é que está intimamente ligado à ideia de ofício. Ela se conecta à ideia de que existem determinadas pessoas ordenadas para realizar certas funções na e através da igreja. Com relação à missão, a maioria das igrejas reformadas tem entendido que devem ser enviados como ministros missionários, pessoas que detém uma posição de autoridade e responsabilidade no governo da igreja. Através de sua pregação e testemunho, eles são embaixadores oficiais e anunciadores de Jesus Cristo. Eles autoritativamente o representam para o mundo. Quando os incrédulos os aceitam, eles estão aceitando a Cristo (Mateus 10:40). Quando os incrédulos os rejeitam, eles estão rejeitando a Cristo. Os incrédulos podem rejeitar a mensagem, mas eles não têm permissão para tal – há consequências eternas por fazer isso! Visto que vem do Senhor Jesus, há uma obrigação de obedecer ao chamado do evangelho emitido por seu oficial.

A tarefa de um missionário

O principal trabalho de um missionário é, então, pregar e dar testemunho. Pregar significa autoritariamente proclamar a Palavra de Deus. Exatamente como um pastor, um missionário foi treinado para fazer isso, embora frequentemente em contextos transculturais. Um missionário expõe as Escrituras e diz com autoridade: “Assim diz o Senhor!” Um missionário também é uma testemunha. Testemunhar significa usar oportunidades informais para engajar os incrédulos e compartilhar o evangelho com eles. Testemunhar frequentemente envolve diálogo e conversação.

Então, o que acontece quando as pessoas crêem através da pregação e do testemunho? Então, é o trabalho de um missionário discipular essa pessoa em preparação para a membresia da igreja. Um missionário tem que ensinar às pessoas o que significa ser um seguidor de Jesus Cristo e um membro de sua igreja. Quando essa pessoa está pronta para assumir a responsabilidade de ser membro da igreja de Jesus Cristo, o missionário é responsável por administrar o sacramento do batismo em um culto público.

Com o tempo, se Deus abençoar os esforços do missionário, uma nova igreja local começará a se desenvolver. O missionário será o primeiro líder desta nova igreja local. O missionário terá que treinar os primeiros presbíteros e diáconos. Até que esta nova igreja possa chamar seu próprio pastor, o missionário deve ser o único a administrar o sacramento da Ceia do Senhor na adoração pública.

Se olharmos biblicamente para o trabalho missionário, nossa conclusão deve ser que somente os homens podem servir como missionários oficiais da igreja. Os homens são chamados para pregar, não as mulheres (1 Timóteo 2:11-12). Como os sacramentos são uma pregação visível do evangelho, somente os homens são chamados para administrar o batismo e a Ceia do Senhor. De acordo com as Escrituras, apenas homens são chamados a ser líderes na igreja de Cristo (1 Coríntios 14:33-35). Seria, portanto, contrário ao ensinamento bíblico ter uma mulher missionária guiando e treinando presbíteros e diáconos. Não, se seguirmos os ensinamentos da Bíblia, devemos concluir que a igreja deve enviar homens fiéis e somente homens para pregar e testemunhar as boas novas de Jesus Cristo.  

O papel das mulheres no campo missionário

Mas isso significa que as mulheres não têm lugar algum no campo missionário? De modo nenhum! Primeiro, nunca devemos minar o importante trabalho que muitas mulheres fazem como esposas de missionários. Quando eu era missionário, minha esposa trabalhava ao meu lado, não apenas criando nossos filhos, mas também servindo à causa do evangelho na aldeia onde morávamos. Ela foi capaz de fazer certas coisas que eu não poderia fazer, ou pelo menos eu não poderia fazer de forma eficaz. Por exemplo, ela liderou um grupo de estudos bíblicos para as mulheres de nossa aldeia. Ela fez amizade com essas mulheres e foi capaz de ter um forte relacionamento com elas. Nesses relacionamentos, ela teria oportunidades de compartilhar o evangelho em um nível pessoal. Por causa do histórico delas de ter sofrido abuso sexual, eu não seria capaz de alcançar essas mulheres como minha esposa fez.

No entanto, não é apenas como esposas que as mulheres podem contribuir para a missão cristã. Há oportunidades para as mulheres servirem em papéis valiosos de apoio como educação, medicina ou desenvolvimento econômico. Esses tipos de áreas não são propriamente ou biblicamente para serem considerados como obra missionária. São áreas que auxiliam a missão. Eles apóiam a propagação do evangelho que está sendo feita pelos missionários oficiais. Por essa razão, nas igrejas reformadas, aqueles enviados para fazer este trabalho, homem ou mulher, têm sido tipicamente chamados “trabalhadores de ajuda humanitária”, não “missionários”. Essa é uma boa prática a ser mantida.  

Conclusão

Em muitas outras igrejas, a definição de missão foi ampliada para incluir muitas coisas fora da proclamação do evangelho. Isso está em parte na raiz da tendência de chamar tanto homens quanto mulheres de “missionários”. No entanto, nas igrejas reformadas, acreditamos que a Bíblia deve ser nosso único padrão para doutrina e vida. Se levarmos a Bíblia a sério sobre qual é a missão da igreja, devemos concluir que, biblicamente falando, somente os homens podem realmente ser enviados como missionários.

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Tradução:  André Lima