Dez maneiras de ajudar seus filhos a amar e permanecer na Igreja

Se você tem filhos e está em uma igreja fiel que prega o evangelho, não gostaria que eles amassem essa igreja e permanecessem nela? Venho sugerir uma lista com maneiras para auxiliar os pais cristãos a ajudarem seus filhos a fazer isso.

Devo dizer que compartilho isso em primeiro lugar porque, se sua igreja for fiel, o evangelho está em jogo. É de vital importância para nossos filhos permanecer em uma igreja onde o evangelho de Cristo é proclamado por meio da Palavra e dos Sacramentos. Os filhos são discipulados para Cristo na igreja. Mas, nunca podemos tomar isso como certo.

Em segundo lugar, escrevo isso para me lembrar de como é importante discipular meus próprios filhos. Também devo dizer que nunca há qualquer garantia de que seus filhos permanecerão na igreja, ou que eles responderão às promessas do evangelho. Você pode fazer tudo certo, mas o Espírito Santo precisa regenerar o nosso coração, e o coração de nossos filhos também. É tudo pela graça. Porém, sob uma perspectiva humana, se você fizer uma, algumas ou todas essas dez coisas, certamente aumentará as chances de seus filhos permanecerem e amarem sua igreja focada no evangelho.

  1. Seja positivo sobre a igreja e seu relacionamento com ela. Certifique-se de que seus filhos ouçam e vejam sua atitude positiva. Lembre-se de orar regularmente pela igreja e pelos pastores, presbíteros e diáconos.
  2. Frequente regularmente os cultos de adoração. Comunique aos seus filhos que você precisa do ministério da Palavra e dos sacramentos e eles precisam também. Sempre é possível crescer. O chamado de Deus para a adoração aplica-se à sua família como também a todas as outras pessoas.
  3. Comprometa-se com sua igreja local. Envolva seus filhos o máximo possível nas atividades de sua igreja local.
  4. Torne a frequência à igreja obrigatória para todos em sua casa. Se eles não querem ir à igreja, deveriam ir de qualquer maneira (a menos que estejam doentes, é claro). Existem algumas coisas que podemos não ter vontade de fazer (como ir ao dentista), mas elas são boas para nós e nossos pais nos forçaram porque nos amavam. Ame seus filhos da mesma maneira.
  5. Da mesma forma, torne obrigatória a frequência ao catecismo. Se eles não quiserem ir, novamente você tem que insistir. Apoie os esforços de seu pastor para catequizar seus filhos. Verifique se eles estão memorizando o catecismo, verifique se eles estão fazendo o dever de casa e certifique-se de que estão preparados para a aula.
  6. Cante em casa o que você canta no culto público. Comunique aos seus filhos que você realmente aprecia os salmos e hinos da igreja. Que você deseja que eles adotem essas músicas e as valorizem. Ensine a seus filhos o significado do que cantam.
  7. Tanto quanto possível, more próximo o suficiente da igreja para que possa se envolver de forma significativa na vida da igreja. Se você mora mais longe, procure e aproveite as oportunidades para se aproximar.
  8. Ensine seus filhos sobre a importância de dar os primeiros frutos ao Senhor. Fale com seus filhos sobre contribuições financeiras para a igreja. Certifique-se de dar exemplo a eles, contribuindo fielmente. Seja um alegre doador!
  9. Mande-os para a escola cristã que as outras crianças da congregação frequentam. Isso os ajudará a desenvolver conexões e amizades com colegas na comunidade da igreja.
  10. Dê orientações úteis com relação a seus amigos e cônjuges em potencial. Incentive-os a ter amigos crentes e a encontrar cônjuges que amem ao Senhor, mas que também amem sua igreja.

Em resumo, faça tudo o que puder para comunicar que a igreja não é uma organização humana ou um clube onde você pode entrar e sair quando quiser. Deixe claro que a igreja é sua mãe espiritual (Gálatas 4.6), o corpo de Cristo (Efésios 1.22-23), a noiva pela qual Cristo morreu e que ele ama (Efésios 5.25), e a coluna e baluarte da verdade (1 Timóteo 3.15).

Tradução: Rev. Alan Kleber Rocha

“Sou muito grato pela obediência ativa de Cristo.”

j-gresham-machen

No final do século XIX e início do XX, estava ocorrendo uma épica batalha épica pelo evangelho na América do Norte. Quando eu digo “o evangelho”, eu realmente estou falando das boas novas de salvação em Jesus Cristo somente. O liberalismo teológico estava assolando igrejas que, no passado, havia sido firmes na fé bíblica, igrejas como a Igreja Presbiteriana nos EUA. Dentre outras coisas, o liberalismo estava negando a inerrância das Escrituras, negando milagres, como a concepção virginal de Cristo e sua ressurreição física, e a necessidade de uma expiação penal substitutiva. Deus levantou vozes proféticas ponderosas para protestar. Entre elas, destacou-se J. Gresham Machen (1881 – 1937).

Machen é mais conhecido pelo seu livro, Cristianismo e Liberalismo, de 1923. Machen habilmente argumentou que o liberalismo não era cristianismo bíblico – o livro é relevante ainda em nossos dias, pois apenas os nomes mudaram. Anteriormente um professor de Novo Testamento no histórico Seminário de Princeton, Machen entrou em conflito com o status quo e acabou se tornando uma figura protagonista na fundação do Seminário Teológico de Westminster, na Filadélfia.  Sua batalha contínua contra o liberalismo também o levou a ser despojado da Igreja Presbiteriana, em 1935. No ano seguinte, Machen esteve à frente da formação de uma nova igreja: a Igreja Presbiteriana da América. Posteriormente, essa igreja ficou conhecida como a Igreja Presbiteriana Ortodoxa.

No fim de 1936, Machen tinha 55 anos de idade. Desde há muito, ele tinha sido um ávido trilheiro e alpinista, mas aquele inverno o deixou com saúde má. Apesar de um resfriado e uma tosse horrível, Machen foi ao oeste, para a Dacota do Norte, para falar para algumas igrejas, durante o recesso de Natal do Seminário de Westminster. Sua saúde deteriorou rapidamente durante seu período nas pradarias. Em pouco tempo, ele estava no hospital, em Bismarck, com pneumonia. No dia 1º de janeiro de 1937, Machen alternava entre estar consciente e inconsciente. Durante um de seus momentos de lucidez, ele ditou um breve telegrama para seu amigo no Westminster, o Prof. John Murray. O telegrama foi breve: “Sou muito grato pela obediência ativa de Cristo. Nenhuma esperança sem ela.” Essas foram suas últimas palavras registradas. Ele morreu por volta das 19:30 do Dia de Ano Novo de 1937.

Cristianismo e Liberalismo pode estar no topo da pilha do legado literário de Machen, mas seu telegrama final definitivamente contém suas palavras mais citadas. Elas mercem um olhar mais próximo. O que Machen quis dizer com “a obediência ativa de Cristo” e por que ela lhe era tão encorajadora? Seres humanos pecaminosos têm um problema dobrado. Primeiro, por causa de nosso pecado, nós temos uma dívida infinita para com a justiça de Deus, que não podemos pagar. Segundo, mesmo que que nossa dívida fosse paga, nós ainda seríamos confrontados com a exigência da lei de Deus de contínua obediência daí em diante. Jesus Cristo endereça ambas. Como Ele sofreu a ira de Deus em nosso lugar, Ele pagou nossa dívida infinita. Na teologia, nós chamamos isso de sua obediência passiva (ou sofredora). Com seus 33 anos de observância perfeita da lei, Cristo também nos obteve uma obediência perfeita da lei de Deus. Nós chamamos isso de obediência ativa. Sua vida justa é imputada ou creditada a nós – conforme a Confissão Belga diz no artigo 23: “[…] sua obediência é nossa quando cremos nele”.

Romanos 5:19 fala diretamente dessa verdade do evangelho: “Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos.” O Espírito Santo aponta para dois homens. Um, Adão, foi desobediente e seu fracasso carregado de culpa foi imputado a seus descendentes. O outro, Jesus Cristo, foi obediente e suas obras justas foram imputadas aos crentes para sua justificação. Quando nós temos Cristo como salvador, nós não temos apenas o perdão de nossos pecados, mas também a justiça positiva aos olhos de Deus. Com base nas duas coisas, Deus nos declara reconciliados consigo. Ele nos vê como perdoados E perfeitamente obedientes.

Esse ensino do evangelho estava fresco na mente de Machen quando ele estava morrendo porque, umas duas semanas antes, ele havia feito uma transmissão no rádio sobre o assunto. Antes disso, ele o havia discutido com John Murray no seminário. No que ele sabia que estava morrendo, ele olhou não para sua vida de imperfeição em seguir a Cristo, mas para a vida perfeita que Cristo havia vivido por ele. Machen encontrou conforto em saber que ele apareceria diante do trono de Deus perfeitamente trajado com a justiça de Jesus. Sua conta não havia apenas tido toda dívida cancelada, mas preenchida com os méritos imputados de Cristo. Você consegue ver por que Machen terminou com “Nenhuma esperança sem ela”. Nós podemos até inverte: “A obediência ativa de Cristo: muita esperança com ela!”

********

Tradução:  Natan Cerqueira

Como se beneficiar da Ceia do Senhor

the-lords-supper

Antes de uma recente celebração da Ceia do Senhor em minha igreja, aproveitei a oportunidade para dar um pouco de ensino extra sobre como os cristãos podem e devem se beneficiar do sacramento da Ceia do Senhor.

*******************

Antes de ler a Forma para a celebração, quero apenas dar algumas instruções extras por um momento sobre como se beneficiar da Ceia do Senhor. Você já foi à Ceia do Senhor e depois se afastou dela e se perguntou: “O que foi aquilo? O que eu deveria ganhar com isso? ”Você já se perguntou:“O que deveria acontecer comigo na Ceia do Senhor?”

Bem, a Ceia do Senhor é um sacramento destinado a fortalecer nossa fé. É fácil pensar que isso é algo que está fora de nossas mãos. Nós vamos sentar à mesa, e então apenas esperarmos e vermos o que acontece. É como se estivéssemos esperando que um raio espiritual nos atingisse e recarregasse nossa bateria espiritual. Pode acontecer e pode não, mas está fora de nossas mãos. Mas nada acontece. Nós comemos o pão, bebemos o vinho, mas nada muda. Nós não sentimos nada. Nossa fé não é fortalecida.

Amados, temos que lembrar como esse sacramento funciona. Não funciona como mágica. Não é que sejamos apenas participantes passivos esperando que Deus faça o que Ele faz conosco para fortalecer nossa fé. Não, devemos nos envolver ativamente. Você tem que vir para a mesa com o coração e a mente envolvidos. Quando Jesus disse: “Faça isso em memória de mim” (Lucas 22:19), ele quis que tivéssemos consciência do que estamos fazendo. Se você vai se beneficiar da Ceia do Senhor, precisa pensar no que está acontecendo. Caso contrário, é apenas um ritual vazio. E um ritual vazio não tem benefício – muito pelo contrário!

Deixe-me fazer isso concreto e prático para você. Observe-me enquanto eu parto o pão. Essa é uma parte importante do sacramento. Estou realmente partindo esse pão, e então o corpo de Cristo foi realmente quebrado para pagar por seus pecados. Quando o pão chegar até você, pegue-o na mão e olhe por um momento. É real. Então o corpo de Cristo que carregou seus pecados é real. Esse corpo foi realmente pregado na cruz por você. Experimente isso. Sinta na sua boca. É real: diga a si mesmo, é assim que o evangelho é real. Faça a mesma coisa com o vinho. Observe-me enquanto eu derramo o vinho no copo. Estou realmente servindo vinho de verdade. Foi assim que o sangue de Cristo foi real e foi derramado por seus pecados. Quando você pegar o copo, olhe para ele; cheire se quiser. Pense nisso. É real – então Cristo teve uma verdadeira coroa de espinhos na cabeça e produziu sangue real. Quando você bebe o vinho, diga a si mesmo: este é o vinho real e o sangue de Cristo que derramou de suas mãos, pés e laterais também é real. Aquele sangue real garantiu minha salvação. É tudo verdade, é tudo real.

Amados, é assim que sua fé será fortalecida nesta manhã. Veja os elementos reais do pão e do vinho e, através deles, veja como o evangelho é real.

Missionárias: o que a missiologia reformada tem a dizer?

mulher no campo missionário

Em muitos países, as igrejas enviam homens e mulheres como missionários. Na maioria dessas situações, no entanto, essas mesmas igrejas também têm pastoras. Entretanto, nas igrejas de confessionalidade reformadas e presbiterianas, somente os homens atuam como pastores e, na maioria das vezes, apenas homens são enviados como missionários. No entanto, existem algumas igrejas reformadas e presbiterianas em que as mulheres estão atuando sob o título de “missionárias”. Como devemos avaliar essa prática? As igrejas reformadas podem enviar mulheres como “missionárias”?

 Definições

Para responder a essa pergunta com responsabilidade, precisamos definir nossos termos. Primeiro, precisamos encontrar uma definição de missão que expresse o que a Bíblia ensina. Se trabalharmos com passagens como Mateus 28:18-20, Marcos 16:9-20, Lucas 24:46- 49, Atos 1:8 e Romanos 10:14-15, chegamos a uma definição de missão parecida com:  

Missão é o envio oficial da igreja para ir e fazer discípulos pregando e testemunhando as boas novas de Jesus Cristo em todas as nações através do poder do Espírito Santo.

Os leitores interessados em ler mais sobre o desenvolvimento dessa definição podem se consultar no capítulo 2 do meu livro, For the Cause of the Son of God (disponível apenas em inglês).

Eu quero fazer duas observações sobre essa definição. Primeiramente, a missão tem a ver com a igreja. É o envio oficial da igreja. Nosso Senhor Jesus enviou seus apóstolos, e entendemos que esses apóstolos permaneceram como representantes de toda a igreja do Novo Testamento, presente e futuro. Através dos apóstolos, a igreja foi enviada por Jesus Cristo.

Outra coisa a notar é que a missão é uma tarefa oficial. O que quero dizer é que está intimamente ligado à ideia de ofício. Ela se conecta à ideia de que existem determinadas pessoas ordenadas para realizar certas funções na e através da igreja. Com relação à missão, a maioria das igrejas reformadas tem entendido que devem ser enviados como ministros missionários, pessoas que detém uma posição de autoridade e responsabilidade no governo da igreja. Através de sua pregação e testemunho, eles são embaixadores oficiais e anunciadores de Jesus Cristo. Eles autoritativamente o representam para o mundo. Quando os incrédulos os aceitam, eles estão aceitando a Cristo (Mateus 10:40). Quando os incrédulos os rejeitam, eles estão rejeitando a Cristo. Os incrédulos podem rejeitar a mensagem, mas eles não têm permissão para tal – há consequências eternas por fazer isso! Visto que vem do Senhor Jesus, há uma obrigação de obedecer ao chamado do evangelho emitido por seu oficial.

A tarefa de um missionário

O principal trabalho de um missionário é, então, pregar e dar testemunho. Pregar significa autoritariamente proclamar a Palavra de Deus. Exatamente como um pastor, um missionário foi treinado para fazer isso, embora frequentemente em contextos transculturais. Um missionário expõe as Escrituras e diz com autoridade: “Assim diz o Senhor!” Um missionário também é uma testemunha. Testemunhar significa usar oportunidades informais para engajar os incrédulos e compartilhar o evangelho com eles. Testemunhar frequentemente envolve diálogo e conversação.

Então, o que acontece quando as pessoas crêem através da pregação e do testemunho? Então, é o trabalho de um missionário discipular essa pessoa em preparação para a membresia da igreja. Um missionário tem que ensinar às pessoas o que significa ser um seguidor de Jesus Cristo e um membro de sua igreja. Quando essa pessoa está pronta para assumir a responsabilidade de ser membro da igreja de Jesus Cristo, o missionário é responsável por administrar o sacramento do batismo em um culto público.

Com o tempo, se Deus abençoar os esforços do missionário, uma nova igreja local começará a se desenvolver. O missionário será o primeiro líder desta nova igreja local. O missionário terá que treinar os primeiros presbíteros e diáconos. Até que esta nova igreja possa chamar seu próprio pastor, o missionário deve ser o único a administrar o sacramento da Ceia do Senhor na adoração pública.

Se olharmos biblicamente para o trabalho missionário, nossa conclusão deve ser que somente os homens podem servir como missionários oficiais da igreja. Os homens são chamados para pregar, não as mulheres (1 Timóteo 2:11-12). Como os sacramentos são uma pregação visível do evangelho, somente os homens são chamados para administrar o batismo e a Ceia do Senhor. De acordo com as Escrituras, apenas homens são chamados a ser líderes na igreja de Cristo (1 Coríntios 14:33-35). Seria, portanto, contrário ao ensinamento bíblico ter uma mulher missionária guiando e treinando presbíteros e diáconos. Não, se seguirmos os ensinamentos da Bíblia, devemos concluir que a igreja deve enviar homens fiéis e somente homens para pregar e testemunhar as boas novas de Jesus Cristo.  

O papel das mulheres no campo missionário

Mas isso significa que as mulheres não têm lugar algum no campo missionário? De modo nenhum! Primeiro, nunca devemos minar o importante trabalho que muitas mulheres fazem como esposas de missionários. Quando eu era missionário, minha esposa trabalhava ao meu lado, não apenas criando nossos filhos, mas também servindo à causa do evangelho na aldeia onde morávamos. Ela foi capaz de fazer certas coisas que eu não poderia fazer, ou pelo menos eu não poderia fazer de forma eficaz. Por exemplo, ela liderou um grupo de estudos bíblicos para as mulheres de nossa aldeia. Ela fez amizade com essas mulheres e foi capaz de ter um forte relacionamento com elas. Nesses relacionamentos, ela teria oportunidades de compartilhar o evangelho em um nível pessoal. Por causa do histórico delas de ter sofrido abuso sexual, eu não seria capaz de alcançar essas mulheres como minha esposa fez.

No entanto, não é apenas como esposas que as mulheres podem contribuir para a missão cristã. Há oportunidades para as mulheres servirem em papéis valiosos de apoio como educação, medicina ou desenvolvimento econômico. Esses tipos de áreas não são propriamente ou biblicamente para serem considerados como obra missionária. São áreas que auxiliam a missão. Eles apóiam a propagação do evangelho que está sendo feita pelos missionários oficiais. Por essa razão, nas igrejas reformadas, aqueles enviados para fazer este trabalho, homem ou mulher, têm sido tipicamente chamados “trabalhadores de ajuda humanitária”, não “missionários”. Essa é uma boa prática a ser mantida.  

Conclusão

Em muitas outras igrejas, a definição de missão foi ampliada para incluir muitas coisas fora da proclamação do evangelho. Isso está em parte na raiz da tendência de chamar tanto homens quanto mulheres de “missionários”. No entanto, nas igrejas reformadas, acreditamos que a Bíblia deve ser nosso único padrão para doutrina e vida. Se levarmos a Bíblia a sério sobre qual é a missão da igreja, devemos concluir que, biblicamente falando, somente os homens podem realmente ser enviados como missionários.

*********************

Tradução:  André Lima

O Sínodo de Dort e a Catequese

Synod of Dort

Palestra para a Conferência Dordt 400 Anos em Caruraru, PE, 23 março 2019.

Acontece quase toda semana em igrejas reformadas no Canadá e na Austrália. Geralmente é uma terça ou uma quarta-feira à noite. Os pais trazem todas as crianças entre as idades de doze e dezoito anos para serem ensinadas o catecismo por seu pastor. Na maioria das vezes, é o pastor que ensina; se a igreja não tem pastor, então um presbítero ou alguém pode ensinar. Numa igreja grande, o pastor pode não ser capaz de ensinar todas as aulas. Porque há tantos alunos, terá que haver outros ensinando com ele.

Em algumas partes da Austrália, essas aulas de catecismo são ensinadas pelo pastor na escola cristã durante o dia. Na minha congregação, como no Canadá, fazemos as aulas à noite.

Eu vou descrever com mais detalhes o que acontece onde eu sou pastor. Em Launceston, temos três aulas, todas na quarta-feira à noite. A primeira aula é das 19h às 1945h. Esta aula é para as crianças entre os 12 e os 15 anos – a turma júnior. Nesta aulas, as crianças aprendem a doutrina da Bíblia com ajuda do Catecismo de Heidelberg. Elas têm que memorizar uma parte do Catecismo a cada semana. Eu ensino o que aquela parte significa com a Bíblia.

A próxima aula é das 20h horas às vinte e 2045h. Esta aula é para jovens entre as idades de 15 e 18 – é a turma sênior. Esta classe e dividida em três anos. No primeiro ano, eles estudam os ensinamentos bíblicos da Confissão Belga. Eles memorizam alguns, mas memorizam passagens da Bíblia e não a Confissão Belga. No segundo ano, o foco está nos Cânones de Dort. Então, no terceiro ano, eles novamente estudam o Catecismo de Heidelberg.

A última aula começa às 21h. Está é a aula para aqueles que querem fazer a profissão pública de fé. Esta aula revisa principalmente os ensinamentos bíblicos das confissões reformadas, mas em minha igreja eu também ensino apologética aos nossos jovens por algumas semanas – tudo sobre como defender a fé cristã.

Como mencionei, esta é uma prática padrão em nossas igrejas reformadas no Canadá e na Austrália. Não sei como acontece aqui no Brasil. Mas se algo assim é feito no Brasil também em suas igrejas, eu me pergunto se está faltando a mesma coisa que está faltando no Canadá e na Austrália. As igrejas reformadas geralmente fazem bem em ensinar seus jovens. Mas a coisa que muitas vezes falta é os pais. Os pais muitas vezes não estão ensinando seus filhos. Nas mentes de muitos pais cristãos, a igreja tem que ensinar seus filhos, mas eles não precisam ensinar. Então, geralmente eles não fazem. É triste. Nossas igrejas poderiam ser mais fortes e mais fiéis se todos os pais ensinassem a seus filhos a doutrina cristã.

Aqui é bom prestar atenção ao Sínodo de Dort. O Sínodo discutiu muito mais coisas além de como lidar com os arminianos. Um dos assuntos discutidos no início do Sínodo foi a questão de como melhor ensinar os jovens da igreja. Em 30 de novembro de 1618, o Sínodo de Dort emitiu seu decreto sobre a melhor maneira de catequese. Nesta palestra, vamos ver o que Dort decidiu sobre esse assunto, por que e o que podemos aprender disso hoje.

Por que o Sínodo discutiu o ensino do catecismo

Precisamos começar com um pouco do contexto. A Reforma enfatizou fortemente a importância dos catecismos para o ensino da doutrina cristã. Havia muitos catecismos protestantes escritos e publicados no século XVI. Mas sem dúvida um dos mais populares foi o Catecismo de Heidelberg, escrito em 1563. Este catecismo foi traduzido pela primeira vez para o holandês no mesmo ano que apareceu em alemão, em 1563. Em pouco tempo, o Catecismo de Heidelberg tornou-se o catecismo das igrejas reformadas nos Países Baixos.

O Sínodo de Dort começou em 1618. Como mencionei, o Sínodo teve que lidar com o problema arminiano. Mas parte do problema arminiano tinha a ver com o Catecismo de Heidelberg. Os arminianos não gostaram o catecismo. Eles tinham questões teológicas, mas também disseram que era muito difícil para os jovens. Eles disseram que não tinha o suficiente da Bíblia. Então, quando chegamos ao Sínodo de Dort, o Catecismo de Heidelberg estava sob pressão.

Mas havia outras questões relacionadas à questão do ensino de catecismo de maneira mais geral. Antes do Sínodo de Dort, as igrejas reformadas holandesas não tinham aulas de catecismo como muitas igrejas reformadas têm hoje. Muitas vezes elas teriam uma breve aula na doutrina cristã para aqueles que estavam prestes a fazer a profissão pública da sua fé. Mas ter uma aula semanal regular para os jovens da igreja ensinada pelo ministro – isso era inédito.

O que eles tinham em alguns lugares era a pregação do catecismo. No Sínodo de Haia, em 1586, as igrejas reformadas holandesas concordaram que todas as tardes de domingo os pastores deveriam “explicar resumidamente o resumo da doutrina contida no Catecismo.” Isso se tornou para do Regimento da Igreja Reformada. Agora o problema era que, mesmo depois de 1586, em alguns lugares isso era mal feito. Em outros lugares simplesmente não foi feito. Este foi especialmente o caso em muitas igrejas pequenas no interior, nas aldeias. Portanto, houve falta de consistência nas igrejas reformadas holandesas que levaram ao Sínodo de Dort. Congregações inteiras estavam perdendo a instrução doutrinária regular, e isso obviamente incluía os jovens dessas congregações. E obviamente o futuro da igreja não é muito promissor se os jovens não estão sendo discipulados na fé cristã. Quando chegamos ao Sínodo de Dort em 1618, a questão é como melhorar o ensino da doutrina cristã nas igrejas reformadas holandesas.

A discussão do Sínodo

Quando chegou ao Catecismo de Heidelberg e ao treinamento de catecismo, o Sínodo de Dort discutiu e decidiu sobre vários assuntos. Eles tomaram uma decisão sobre a pregação do catecismo. Eles reafirmaram o que o Sínodo de Haia decidiu em 1586. O Sínodo tratou de todas as objeções dos Arminianos ao Catecismo. O Catecismo foi examinado e aprovado por todos os delegados, incluindo os estrangeiros, como estando em total concordância com a Bíblia. Mas nosso foco estará na discussão e decisão sobre a melhor maneira de ensinar a doutrina cristã.

O Sínodo dividiu esse assunto em duas partes. Eles observaram a melhor maneira de ensinar os jovens da igreja e, então, a melhor maneira de ensinar os adultos. Vamos apenas olhar para o que o Sínodo disse sobre a melhor maneira de ensinar aos jovens.

A discussão começou na sessão da manhã de 28 de novembro. Talvez vocês sabem que temos os Atos do Sínodo, mas os Atos nem sempre dão muitos detalhes sobre as discussões. No entanto, nesta situação, temos uma testemunha pessoal de um inglês chamado John Hales. Ele observou o sínodo em nome do embaixador britânico na Holanda e informou-o com cartas. Estas cartas foram publicadas mais tarde.

John Hales relatou o que observou na manhã de 28 de novembro de 1618. Johannes Bogerman, o presidente do Sínodo, fez pela primeira vez um discurso sobre a necessidade e a utilidade da catequese. Bogerman disse que o catecismo era a base e o fundamento da religião. Era o único caminhão para os princípios do cristianismo serem transmitidos. Bogerman falou de como a catequese era uma prática antiga que remontava à igreja primitiva. Quando a catequese é negligenciada, ele disse, a ignorância resulta entre os membros da igreja. A confusão também resulta quando a catequese não é praticada – as pessoas voltam para o catolicismo romano, ou caiem nos erros do anabatismo e em outros erros. Bogerman argumentou que a prática da catequese reformada era necessária agora mais do que nunca por causa da crescente agressividade dos jesuítas. Os jesuítas são diligentes no ensino da doutrina – para combatê-los, as igrejas reformadas devem ser ainda mais diligentes.

Após o discurso do presidente, os delegados foram solicitados a apresentar seus conselhos sobre o assunto. Os Atos incluem cópias do conselho dado pelas sete delegações estrangeiras presentes. Não vou passar por todos os detalhes desses documentos. Eu só quero notar um elemento importante encontrado em vários deles. Isso tem a ver com o papel dos pais. Por exemplo, os delegados de Hesse escreveram:

“Acreditamos e julgamos que esse trabalho de ensinar o catecismo aos jovens pertence aos ministros da Palavra de Deus, aos professores da escolar e, finalmente, aos pais.”

Pais que eram descuidados com esse trabalho deveriam ser admoestados pelo conselho a ensinar diligentemente e fielmente o catecismo a seus filhos e famílias. Da mesma forma, os delegados de Bremen aconselharam o Sínodo que eles reconheciam três tipos de instrução catequética: escolástica (nas escolas), eclesiástica (na igreja) e doméstica (nas famílias). Os pais, especialmente os pais (os homens), eram responsáveis pela catequese doméstica. O mesmo foi salientado pelos dois delegados de Genebra, Johannes Deodatus e Theodorus Trochinus.

Todos esse conselhos foram apresentados e discutidos em 28 de novembro de 1618. No dia seguinte, um sermão foi pregado por um dos delegados britânicos, Joseph Hall. Então, na sessão da manhã de 30 de novembro, o Sínodo voltou à questão de como ensinar o catecismo da melhor maneira. O presidente estava se reunindo com os diretores executivos do sínodo e, levando todos os conselhos em conta, eles trabalharam juntos para produzir uma decisão proposta. O presidente apresentou esta proposta e foi aprovada.

A Decisão do Sínodo

A decisão sobre a melhor maneira de ensinar os jovens tinha três partes. Deveria haver uma maneira tripla de catequizar os jovens das igrejas reformadas holandesas.

Tudo começou com o lar. Os pais tinham a responsabilidade de instruir seus filhos nos fundamentos da fé cristã num nível adequado à idade. Eles deveriam exortá-los à piedade. Os pais deveriam treinar seus filhos em oração. O Sínodo declarou que os pais têm a responsabilidade de levar seus filhos à igreja e depois rever o que ouviram, especialmente nos sermões catequéticos. Os pais devem ler a Bíblia com seus filhos e explicar a eles. Finalmente, o Sínodo decidiu que os pais também deveriam dar aos seus filhos passagens bíblicas para memorizar. Agora, e se houvesse pais que não conseguiram fazer essas coisas? O Sínodo decidiu que os pais negligentes deviam ser admoestados pelos ministros. Se eles não ouvissem os ministros, os presbíteros deveriam repreendê-los e, se necessário, colocá-los sob a disciplina da igreja. Deixar de ensinar seus filhos foi considerado um pecado pelo qual você poderia ser disciplinado. Foi tão sério!

Em segundo lugar, a catequese era a responsabilidade das escolas. Segundo o Sínodo de Dort, o Estado foi responsável pelo estabelecimento e manutenção da educação em geral. Os professores dessas escolas tinham que ser reformados. Eles tiveram que subscrever às confissões reformadas e ser treinados no ensino do catecismo. Dort decidiu que os professores deveriam ensinar o catecismo aos alunos duas vezes por semana e exigir que eles memorizassem. Além disso, os professores também foram obrigados a levar seus alunos para a pregação catequética dominical – presumivelmente, este requisito era para os alunos cujas famílias não eram membros da igreja. Deveriam haver três tipos de ferramentas de catequese para esse trabalho nas escolas: um simples catecismo básico para os alunos mais jovens, uma versão simplificada do Catecismo de Heidelberg (conhecido como Compêndio) e depois o Catecismo de Heidelberg para os alunos mais velhos. Os ministros tinham a responsabilidade de garantir que tudo isso acontecesse. Se houvesse alguma negligência, os ministros reportariam isso ao governo. O governo deve então substituir qualquer professor negligente da escola.

Finalmente, dizia o Sínodo, o catecismo era também da responsabilidade da igreja. Os jovens da igreja deveria ser ensinados pelos pastores, mas não nas aulas de catecismo como as conhecemos hoje. Em vez disso, os ministros deveriam ensinar os jovens, juntamente com o resto da congregação, através da pregação catequética ao nível dos jovens. Este ensino também deve ser seguido com revisão.

Há duas coisas que quero mencionar sobre essa decisão:

Primeiro, há o papel da escola. Naquele antigo contexto holandês, a escola era um instrumento da igreja e do estado. Além disso, a igreja e o estado estavam ligados de maneiras que nos são estranhas hoje em dia. Quando a história mudou nessa conexão foi quebrada. Por fim, a aula de catecismo ensinada na escola tornou-se a aula de catecismo ensinada pela igreja. Assim, as segundas e terceiras maneiras de ensinar o catecismo aos jovens acabaram sendo reunidas.

Em segundo lugar, quero destacar que o Sínodo seguiu o conselho dos delegados de Hesse e Bremen em dividir a instrução nessa maneira tripla. Mas há uma diferença importante. A diferença está na ordem. O Sínodo de Dort colocou o papel dos pais em primeiro lugar. Além disso, o Sínodo disse muito mais sobre a responsabilidade dos pais do que qualquer um dos conselhos recebidos.

Relevância Para Hoje

O Sínodo de Dort estava certo ao enfatizar o papel dos pais na catequese. Esta é uma ênfase bíblica. Poderíamos pensar em Efésios 6.4:

“E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor.”

Especialmente os pais são chamados a manter seus filhos em ordem e também a ensine-lhes a Palavra de Deus. Às vezes você ouve falar de igrejas que têm “pastores de jovens.” As igrejas reformadas também têm pastores de jovens – eles são chamados de “pais.” Os pais devem ser os pastores dos jovens da igreja de Cristo.

Além disso, os pais de uma igreja reformada prometem fazer isso. Quando seus filhos são batizados, os pais reformados prometem que instruirão seus filhos na doutrina cristã. Eles prometem que farão isso. Eles têm a responsabilidade primária, não o ministro. A igreja apóia o ensino dos pais, mas a igreja não substitui o ensino dos pais.

Os pais cristãos devem ensinar aos filhos doutrina cristã. Mas como? Deixe-me dar algumas sugestões práticas:

Primeiro de tudo, para ensinar seus filhos, você deve ter uma boa compreensão básica da própria doutrina cristã. Você tem que aproveitar os recursos que estão disponíveis para você. Se você está numa igreja reformada, onde existe a pregação catequética, faça o seu hábito de estar presente toda vez, para que possa ser fortalecido em sua compreensão da doutrina bíblica. Então você também precisa ler a Bíblia para si mesmo todos os dias. Você não pode ensinar os outros se você não está sendo ensinado a si mesmo. Isso acontece através do estudo da Palavra de Deus por si mesmo. Também quero recomendar a leitura de bons livros cristãos que ensinem doutrina. Se você precisar de uma sugestão para um livro como esse, pergunte ao seu pastor. Muitos pais não ensinam porque não têm a confiança ou sentem que têm o conhecimento necessário. Mas se você é um pai cristão, você tem o chamado e a responsabilidade de fazer isso; portanto você deve encontrar maneiras de reforçar a confiança e crescer em conhecimento.

Em seguida, todo lar cristão deve ter um tempo determinado para o culto familiar todos os dias. Em muitas casas reformadas no Canadá e na Austrália, isso acontece depois da refeição da noite. Mas não precisa ser depois de uma refeição. Só precisa de um tempo todos os dias quando a família se reunirá para adorar a Deus juntos. Durante este tempo, deve haver oração e canto. Deve haver leitura da Bíblia. Mas também deve haver um breve período de aprendizado da doutrina cristã com a ajuda de um catecismo.

Na minha família, geralmente usamos o Catecismo Menor de Westminster. Este é um catecismo das igrejas Presbiterianas, mas ensina a doutrina Reformada como o Catecismo de Heidelberg. Temos um livro baseado no Catecismo Menor de Westminister. Cada pergunta e resposta tem seis dias de ensino para acompanhar. Também usamos o Catecismo de Heidelberg com um livro semelhante. Às vezes também passamos pela Confissão Belga e pelos Cânones de Dort. Mas a cada dia, passamos talvez cinco minutes do tempo de adoração de nossa família aprendendo a doutrina cristã. Ao fazer isso, quando nossos filhos vão para as aulas de catecismo da igreja, eles já aprenderam muito dos princípios básicos.

Mas qualquer método que você usar, o importante é fazer! Pais, por favor, me ouçam: se você ama seus filhos, ensine-os os caminhos do Senhor. Nada é mais importante para o seu bem-estar!

Conclusão

Em conclusão, deixe-me dizer também que isso é muito importante para o futuro da igreja e o progresso do evangelho. Não teremos uma igreja forte sem famílias fortes. Famílias fortes são a espinha dorsal de igrejas fortes. Teremos famílias espiritualmente fortes quando os pais, especialmente os homens, os cabeças da família, levarem a sério sua responsabilidade para prover liderança espiritual e ensino para seus filhos. Quando tivermos isso, nossas igrejas estarão mais fortes. Nosso testemunho do evangelho ficará mais brilhante. E Deus será louvado com maior fervor.

*********

Tradução:  Jim Witteveen